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sexta-feira, 11 de março de 2016

Escravidão e concurso público

Um dos problemas econômicos principais da escravidão é seu alto risco: os escravos eram muito caros, e por causa disso apenas forneciam um retorno em longo prazo. Isto é, o lucro do trabalho escravo vinha muito depois de se ter pago quantias elevadas por aquele ser humano.
O risco vem de, afora exigir um capital inicial muito alto para gastar nos escravos, a produtividade poderia não compensar, o "trabalhador" poderia morrer cedo, fugir, ser um rebelde, etc.

Neste sentido, a mão de obra assalariada é muito mais eficiente e contributiva para o desenvolvimento econômico--exige menos investimento inicial, fornecendo lucro de forma mais rápida, e é possível demitir funcionários quando seus custos não estão compensando o retorno adquirido.

O concursado não se encaixa nessa apreensão: ao recrutar funcionários dessa forma, o governo está se comprometendo por décadas a pagar uma quantidade x àquele indivíduo. Pela vigente Constituição, não é possível passar a pagar menos ou demitir os improdutivos. É um custo obrigatório. "Haja o que hajar", os soldos devem ser pagos e até mesmo reajustados conforme inflação.

Escravidão e concurso público têm isso em comum: antes de garantir um retorno, é necessário firmar um compromisso enorme, que pode implicar em sérios prejuízos. Perversamente, as duas práticas vitimizam a parcela mais sofrida da sociedade: outrora escravos, submetidos a uma desumanização inconteste; hoje os mais pobres (em sua maioria negros), que são quem mais sente o peso de impostos, muito usados para sustentar ricos burocratas.

sábado, 17 de outubro de 2015

Coletivismo e transcendentalismo

Cá estava eu pensando na diferença entre individualistas e coletivistas.

Após um tempo de reflexão, cheguei à ideia de que uma diferença crucial é de linguagem: individualistas observam que coletivistas não se veem como agentes fazendo o que eles pensam que é o certo, mas que pode não ser o certo para os outros. Coletivistas (C) acreditam num ordenamento social justo e transcendental, algo objetivo externo às opiniões.

É estranho pensar num C que não pensa assim: se ele acha que seu desejo de sociedade é uma formulação particular, não deixa de ser C? Não passa a ser um I querendo impor seu desejo aos outros indivíduos? Um I autoritário?

Difícil imaginar que ser C não exija senão ingenuidade, ao menos cinismo.

Claro que por trás desse pensamento há a convicção de que não podemos hierarquizar coisas subjetivas; o utilitarismo, por exemplo, afirma que as melhores decisões são as que deixam mais pessoas felizes. E quem possui a régua dos sentimentos? Quem os mede? Mesuras necessariamente autoritárias, não?

Ainda estou a encontrar uma filosofia C que esteja calcada na lógica e racionalidade (ainda preciso ler Carnap -- que pelo que ouvi falar foi positivista lógico e socialista). Pois pelo que vi até hoje, tais princípios apontam que todo exercício de poder -- imposição de opinião, no caso -- é autoritário. O individualismo parece ser uma solução mais lógica, aí: é a busca pelo ambiente onde cada desejo individual se entrelaça sem coações de outros indivíduos, sem alguns ditando nem meios nem fins. Voluntarismo.

E claro que penso que liberdade é o máximo de justiça possível, dada a constelação de misticismos que povoa cada corpo deste mundo.