Ontem, na CBN, escutei um youtuber chamado Felipe Castanhari falando sobre entretenimento. O Youtube, disse, é muito diferente do modo tevê/rádio de criar conteúdo para entreter. E citou como exemplo seu primo de oito anos, já um youtubeiro.
O menino assiste aos vídeos com a seta do mouse em cima do botão X da aba do navegador: ele quer apenas uma razão para fechar o vídeo. Se há uma pausa, um mísero momento de "zero-entretenimento", ele fecha a janela.
Castanhari diz que esse é um dos aspectos diferenciais de vídeos do Youtube: há muitos cortes para minimizar as pausas e comprimir ao máximo o conteúdo naquilo que seria relevante.
Sinceramente, para mim isso é algo preocupante. Tem a ver com um assunto que já escrevi anteriormente: as pessoas querem se divertir o tempo todo, e ignoram a necessidade da chatice e frustração na construção do caráter. Errando que se aprende tem sua versão no entretenimento: às vezes a diversão está em andar por um caminho difícil, penoso, para depois ser premiado. Isto é divertido também!
Não sei se há de fato uma acentuação do fenômeno. É apenas uma impressão: as pessoas estão cada vez mais folgadas, querendo tudo de mão beijada. Posso estar enganado; mas isso parece uma consequência lógica da modernização, afinal, se a dificuldade gera o esforço, a facilidade deve gerar algo contrário. Não?
Costumo ser cético quanto a essas percepções. "O mundo não é mais o mesmo." "As pessoas estão mudadas." "Tá tudo diferente."Vejo com maus olhos, apesar de haver estudos confiáveis. Mesmo que haja essa aceleração da vida, que deixa os jovens menos concentrados, indispostos a ficar 30 minutos pensando num assunto e perdendo rapidamente o interesse por algo que desviou um pouquinho da rota da diversão, enfim, mesmo que haja isso, ainda há jogos como Dark Souls, que exigem uma paciência de Jó. E fazem sucesso.
Mesmo que estejamos na era da aceleração, ainda temos aqueles que veem na dificuldade e superação uma fonte de entretenimento, quiçá superior a todas as outras.
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terça-feira, 3 de maio de 2016
domingo, 3 de agosto de 2014
Só sei que nada sei
O cientista e o ser humano moderno devem ter em mente que não sabem de quase nada. Tanto o mundo externo quanto o interno abarcam possibilidades que nenhuma mente consegue apreender de forma plena. Viva o neokantismo!
Já dizia Confúcio há milênios: "Sabedoria é distinguir o que você conhece do que não conhece." Humildade necessária para o acadêmico, o cientista, o sociólo...
Sociólogo? Às vezes parece que não. Caso ilustre é o de Bruno Latour, de quem já reclamei. Ele e outros levam a sério demais a ideia de que "a ignorância é uma bênção", e então levam seu sacramento para seus textos e...método?
Ele assim o faz desde seu livro mais conhecido, Vida de Laboratório. É uma proposta realmente interessante, fazer uma etnografia de laboratório. Mas lá já vemos as proposições mais absurdas de Latour, do tipo "nosso discurso leigo vale tanto quanto o das ciências exatas". O cara pensa que tudo é discurso, e que a experiência está no mesmo plano do simbólico.
Opto por fugir desse pessoal, que chamo de sociólogos monistas ontológicos. Os que gostam de jogar no mesmo caldeirão experiência e razão. Acabam tendo as mentes mais estreitas: levam o assunto de sua profissão (sociabilidade e seus efeitos no mundo) para o plano da realidade total. Assim, veem-se no direito de povoar a disciplina com suas digressões pessoais, desapegadas à experiência de muitas pessoas (menos às de seus cultistas). A ignorância, se não existisse, transformaria esse tipo de sociologia em poesia: estética linguística.
Prefiro a simplicidade. Já que não sei de nada sobre o mundo, que minhas ferramentas de investigação sejam as mais claras e eficientes possíveis, para não perder tempo afiando-as, e sim utilizando-as.
Já dizia Confúcio há milênios: "Sabedoria é distinguir o que você conhece do que não conhece." Humildade necessária para o acadêmico, o cientista, o sociólo...
Sociólogo? Às vezes parece que não. Caso ilustre é o de Bruno Latour, de quem já reclamei. Ele e outros levam a sério demais a ideia de que "a ignorância é uma bênção", e então levam seu sacramento para seus textos e...método?
Ele assim o faz desde seu livro mais conhecido, Vida de Laboratório. É uma proposta realmente interessante, fazer uma etnografia de laboratório. Mas lá já vemos as proposições mais absurdas de Latour, do tipo "nosso discurso leigo vale tanto quanto o das ciências exatas". O cara pensa que tudo é discurso, e que a experiência está no mesmo plano do simbólico.
Opto por fugir desse pessoal, que chamo de sociólogos monistas ontológicos. Os que gostam de jogar no mesmo caldeirão experiência e razão. Acabam tendo as mentes mais estreitas: levam o assunto de sua profissão (sociabilidade e seus efeitos no mundo) para o plano da realidade total. Assim, veem-se no direito de povoar a disciplina com suas digressões pessoais, desapegadas à experiência de muitas pessoas (menos às de seus cultistas). A ignorância, se não existisse, transformaria esse tipo de sociologia em poesia: estética linguística.
Prefiro a simplicidade. Já que não sei de nada sobre o mundo, que minhas ferramentas de investigação sejam as mais claras e eficientes possíveis, para não perder tempo afiando-as, e sim utilizando-as.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Baudrillard e Matrix
Acho que Baudrillard não gostou de Matrix por ser "americano demais", por assim dizer. Muita explosão para um francês. Não obstante, suas ideias estão grosseiramente expostas no primeiro filme; vendo a trilogia como um todo elas estão beeem retratadas.
Outra curiosidade: o livro Simulacros e Simulação é uma perfeita ironia da sociedade de consumo que Baudrillard pseudocritica na obra. Isso porque está cheio de pompa estilística, cujo auxílio em expor o que seria o "Simulacro" está na autofagia dessa denúncia: vivemos em um simulacro, e o vemos com suas próprias lentes. Tudo é mercadoria, e pra vender essa ideia, nada melhor que ser criativo na exposição.
clique no link abaixo; é uma ordem.
Outra curiosidade: o livro Simulacros e Simulação é uma perfeita ironia da sociedade de consumo que Baudrillard pseudocritica na obra. Isso porque está cheio de pompa estilística, cujo auxílio em expor o que seria o "Simulacro" está na autofagia dessa denúncia: vivemos em um simulacro, e o vemos com suas próprias lentes. Tudo é mercadoria, e pra vender essa ideia, nada melhor que ser criativo na exposição.
clique no link abaixo; é uma ordem.
"Matrix" revisitado: por que Jean Baudrillard não gostou do filme?
quarta-feira, 23 de abril de 2014
O "Ei, você é burro" de Pondé
A última cartada de Luis Felipe Pondé foi o texto "Por uma direita festiva" que gerou infinitas controvérsias.
Farei uma análise otimista, pressupondo que Pondé não é burro e que possui conteúdo filosófico significativo.
Primeira coisa: o texto não é sobre "pegar mulher". O fato de ter causado tanta discussão, mostra que isso ainda é algo relevante em nossa sociedade. Quantos não ficaram ofendidos com a objetificação das mulheres da superfície do texto? O peso negativo da abordagem mostra que temos um problema grave de gênero. Ponto para o Pondé, que pôs o dedo na ferida.
Segunda coisa: o texto é destinado ao público de esquerda que detesta Pondé e fica reclamando dele. Para ficarem ofendidos, e ficarem contentes com a burrice da direita. Mas Pondé não é dessa corrente. Não de verdade. Ele gosta de ser do contra, só isso. Tem preguiça de idealismo juvenil, que acha que o mundo pode ser bom. Por isso "virou à direita" - porém falar assim é tolice, ele é apenas um melancólico.
Mas o jovem de esquerda padrão lerá e ficará ofendido. Pondé atinge seu objetivo: denunciar uma condição humana de forma pessimista, que é sua verdadeira "vibe". Claro que a vítima não percebe isso, e o filósofo se premia a exclamação "Ei, você é burro!". Quer entender mais? Preste atenção ao final do texto: viremos uma Venezuela, e os liberais vão pegar todas. O acaso histórico transforma em heróis a esquerda aqui, e a direita lá (dentro do círculo moderninho-politizado-jovem).
Sexualidade nunca foi muito importante para Pondé: as pessoas que se comam da maneira que quiser. E que preguiça da controvérsia que gira esse assunto!
Já a forma com que certas pessoas abraçam um conjunto de ideias, se vendo como partidários de um projeto rotulado como esquerda, isso o diverte. Ama comentar com acidez e tentar destruir esses muros ideológicos com razão cínica.
Se você acha Pondé uma besta, ele tentou mandar um recado com esse texto: "Se ofenda, e prove sua burrice!". Sua animosidade lhe incomoda. Qualquer colorido lhe arde os olhos. Se daqui a dez anos o idealismo da moda for um liberalismo vendido como salgados em universidades, preparem-se para o texto "Por uma esquerda festiva 2.0".
Farei uma análise otimista, pressupondo que Pondé não é burro e que possui conteúdo filosófico significativo.
Primeira coisa: o texto não é sobre "pegar mulher". O fato de ter causado tanta discussão, mostra que isso ainda é algo relevante em nossa sociedade. Quantos não ficaram ofendidos com a objetificação das mulheres da superfície do texto? O peso negativo da abordagem mostra que temos um problema grave de gênero. Ponto para o Pondé, que pôs o dedo na ferida.
Segunda coisa: o texto é destinado ao público de esquerda que detesta Pondé e fica reclamando dele. Para ficarem ofendidos, e ficarem contentes com a burrice da direita. Mas Pondé não é dessa corrente. Não de verdade. Ele gosta de ser do contra, só isso. Tem preguiça de idealismo juvenil, que acha que o mundo pode ser bom. Por isso "virou à direita" - porém falar assim é tolice, ele é apenas um melancólico.
Mas o jovem de esquerda padrão lerá e ficará ofendido. Pondé atinge seu objetivo: denunciar uma condição humana de forma pessimista, que é sua verdadeira "vibe". Claro que a vítima não percebe isso, e o filósofo se premia a exclamação "Ei, você é burro!". Quer entender mais? Preste atenção ao final do texto: viremos uma Venezuela, e os liberais vão pegar todas. O acaso histórico transforma em heróis a esquerda aqui, e a direita lá (dentro do círculo moderninho-politizado-jovem).
Sexualidade nunca foi muito importante para Pondé: as pessoas que se comam da maneira que quiser. E que preguiça da controvérsia que gira esse assunto!
Já a forma com que certas pessoas abraçam um conjunto de ideias, se vendo como partidários de um projeto rotulado como esquerda, isso o diverte. Ama comentar com acidez e tentar destruir esses muros ideológicos com razão cínica.
Se você acha Pondé uma besta, ele tentou mandar um recado com esse texto: "Se ofenda, e prove sua burrice!". Sua animosidade lhe incomoda. Qualquer colorido lhe arde os olhos. Se daqui a dez anos o idealismo da moda for um liberalismo vendido como salgados em universidades, preparem-se para o texto "Por uma esquerda festiva 2.0".
terça-feira, 8 de abril de 2014
Porque crítica ideológica é uma questão de gosto
Em um texto anterior, escrevi sobre uma controvérsia que envolve entretenimento e política. Hoje volto a ela, para tratar de um assunto velho e ultrapassado, mas que é interessante de medir seus pontos.
Uma das "armas" mais interessantes dos marxistas é a chamada ideologia, ou a crença em uma configuração mental que faz as pessoas aceitarem seus modos de vida.
Não há nada de errado com essa ideia, afinal, as pessoas crescem em determinados contextos e aprendem a pensar de acordo com o que lhes chega.
Mas a partir daí, quase nada pode ser dito sem ser subjetivo. Qual a ideologia de um discurso x? E a de Fulano? As respostas são uma rede de ideias, que podem estar aliadas com coisas aparentemente opostas. O nazismo tinha nacional-socialismo no nome oficial, e se opunha ao comunismo (também chamado de socialismo real). Um partido comunista governa um dos maiores países capitalistas da Terra. Quem é o dono das ideias, para estabelecer como elas podem se relacionar, e definir com coerência e clareza as diversas doutrinas existentes no planeta?
Não há. Ninguém pode fazer isso. Qualquer um pode inventar uma ideologia. Elas são efêmeras, podem aparecer e sumir num piscar de olhos. Ao que elas se referem, é independente de uma reflexão racional sobre elas. Ninguém falava em ideologia na Idade Média, mas o feudalismo existia. E chamavam seu sistema político de "ordenação divina", e quem somos nós para contrariá-los?
Há um cosmos de ideologias, muitas vezes em um conflito para ver quem fala mais alto. Elas são medidas dentro de uma outra ideologia, ou reflexivamente, por autoanálise. Não há como avaliar qual a melhor sem recorrer a uma ideologia, que também pode ser questionada e por aí vai.
E se não há melhor, torna-se uma questão de preferência: José critica o feudalismo, pois prefere o capitalismo. Adorno critica o capitalismo, pois prefere o utopismo. José e Adorno, um brasileiro e outro alemão, são da mesma ideologia. Uma que analisa as outras. Cada um tem seus seguidores, com práticas distintas. As pessoas têm formas particulares de passar o tempo.
Lembrando que isso é uma redução grosseira do conteúdo das ideologias. Mas realmente aqui o conteúdo não importa. Estou olhando para as "armas": argumentos tentando se erguer como razoáveis. Os choques culturais são cada vez mais raros, mas ainda existem, e estão aí como prova. Não há como dialogar com uma cultura realmente alternativa.
Uma das "armas" mais interessantes dos marxistas é a chamada ideologia, ou a crença em uma configuração mental que faz as pessoas aceitarem seus modos de vida.
Não há nada de errado com essa ideia, afinal, as pessoas crescem em determinados contextos e aprendem a pensar de acordo com o que lhes chega.
Mas a partir daí, quase nada pode ser dito sem ser subjetivo. Qual a ideologia de um discurso x? E a de Fulano? As respostas são uma rede de ideias, que podem estar aliadas com coisas aparentemente opostas. O nazismo tinha nacional-socialismo no nome oficial, e se opunha ao comunismo (também chamado de socialismo real). Um partido comunista governa um dos maiores países capitalistas da Terra. Quem é o dono das ideias, para estabelecer como elas podem se relacionar, e definir com coerência e clareza as diversas doutrinas existentes no planeta?
Não há. Ninguém pode fazer isso. Qualquer um pode inventar uma ideologia. Elas são efêmeras, podem aparecer e sumir num piscar de olhos. Ao que elas se referem, é independente de uma reflexão racional sobre elas. Ninguém falava em ideologia na Idade Média, mas o feudalismo existia. E chamavam seu sistema político de "ordenação divina", e quem somos nós para contrariá-los?
Há um cosmos de ideologias, muitas vezes em um conflito para ver quem fala mais alto. Elas são medidas dentro de uma outra ideologia, ou reflexivamente, por autoanálise. Não há como avaliar qual a melhor sem recorrer a uma ideologia, que também pode ser questionada e por aí vai.
E se não há melhor, torna-se uma questão de preferência: José critica o feudalismo, pois prefere o capitalismo. Adorno critica o capitalismo, pois prefere o utopismo. José e Adorno, um brasileiro e outro alemão, são da mesma ideologia. Uma que analisa as outras. Cada um tem seus seguidores, com práticas distintas. As pessoas têm formas particulares de passar o tempo.
Lembrando que isso é uma redução grosseira do conteúdo das ideologias. Mas realmente aqui o conteúdo não importa. Estou olhando para as "armas": argumentos tentando se erguer como razoáveis. Os choques culturais são cada vez mais raros, mas ainda existem, e estão aí como prova. Não há como dialogar com uma cultura realmente alternativa.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Os ventos da massa: Game of Thrones e House of Cards
Uma coisa que chamou a atenção ao assistir essas duas excelentes séries está no eixo elite-massa. Nas duas, temos apenas elites sociais como personagens principais: em GoT, são todos nobres de casas tradicionais, soberanos de terras e atores políticos de grande peso. Na sua pirâmide de poder, os protagonistas só perdem para o Rei de Westeros, que não é sujeito na história (isto é, não tem sua perspectiva como centro de narrativa).
Em House of Cards (ainda não assisti tudo, estou na primeira temporada ainda), o foco está no jogo político do Congresso norte-americano, com personagens deputados, atores de alto escalão em Washington, de diversos lados distintos: defensores de interesses de grupos específicos (lobistas de sindicatos, de corporações, etc), fazendo valer o conflito de forças que movimenta a política.
Mas direciono o olhar aqui pra outra parte das duas séries: a ausente. A massa. Nas duas, há obviamente uma multidão de pessoas que fazem parte das duas sociedades (a americana e a "westerosi"). Elas são bastante relevantes para o jogo político, sendo tratadas como algo com que a elite deve lidar. Às vezes ela está a favor, outras, contra. Mas em todas as ocasiões é uma peça de articulação, que deve ser lidada com estratégia, para orientar seus ventos.
A elite é o vento da massa nessas duas séries de TV, as mãos que movem as peças de xadrez. E a massa são peões com pouca força individual, mas bastante coletiva. Individualmente, ela não existe, não é nada. Um indivíduo da massa não tem identidade alguma, e se tem já não é mais massa.
Duas cenas são ilustrativas. Em HC, Frank organiza um jantar de gala para uma massa de poderosos, todos ali convidados para juntar dinheiro para a ONG de sua esposa, Claire. São massa manipulada para os fins de Frank, não importando muito que sejam. Na sua maioria são figurantes. Na mesma cena, uma massa de protestantes está na porta do evento, articulada pelo inimigo de Frank em uma questão educacional, o sr. Spinella. Os poucos personagens relevantes na situação estão contornados por muitos à primeira vista irrelevantes, mas que em seu conjunto são bastante importantes.
Em GoT, a família real desce ao cais da cidade para despedirem-se da princesa, que irá partir para terras vizinhas, como parte de um acordo político (ela vai na prática ser uma refém). Na volta, são atacados por uma massa de plebeus famintos, ensandecidos pela falta de comida na cidade. Os revoltosos estão malucos, e quase estupram Sansa Stark. Quem são eles? Uma massa de malucos, empecilho para a nobreza, que os vê como consequência da atual situação política. Afinal, naquele momento estão em guerra, e perdendo. A comida não entra na cidade, apenas a elite não passa fome. Mas para a massa, a consequência do jogo político é retratada no ataque aos poderosos.
Adendo: minha concepção de elite e massa vem de Nietzsche. Ele chama massa de rebanho, e suas ideias são bastante profundas sobre tais temas. Para ele, há um jogo contínuo entre as duas forças, entre a superioridade de poucos e a inferioridade de muitos. O objetivo do ser humano é a ascensão. Mas como ela é muito difícil, poucos conseguem. E ela só é boa por isso. Se fosse algo comum, não teria valor. Pra se ter valor, tem que ser especial, único. Elite. Polêmico, não?
Cuidado ao ler essas palavras. Elite e rebanho não são coisas estáticas. Mudam toda hora. É um conflito dialético, mais ou menos. Mas nesse grau de abstração, não há síntese, apenas duas forças contrastantes se movimentando pelo decorrer do tempo.
Duas cenas são ilustrativas. Em HC, Frank organiza um jantar de gala para uma massa de poderosos, todos ali convidados para juntar dinheiro para a ONG de sua esposa, Claire. São massa manipulada para os fins de Frank, não importando muito que sejam. Na sua maioria são figurantes. Na mesma cena, uma massa de protestantes está na porta do evento, articulada pelo inimigo de Frank em uma questão educacional, o sr. Spinella. Os poucos personagens relevantes na situação estão contornados por muitos à primeira vista irrelevantes, mas que em seu conjunto são bastante importantes.
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| Uma das massas, a de professores. |
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| A massa de famintos ao fundo. Tyrion, protagonista, entre dois guarda-costas. O único rosto visível é o de Tyrion. |
Adendo: minha concepção de elite e massa vem de Nietzsche. Ele chama massa de rebanho, e suas ideias são bastante profundas sobre tais temas. Para ele, há um jogo contínuo entre as duas forças, entre a superioridade de poucos e a inferioridade de muitos. O objetivo do ser humano é a ascensão. Mas como ela é muito difícil, poucos conseguem. E ela só é boa por isso. Se fosse algo comum, não teria valor. Pra se ter valor, tem que ser especial, único. Elite. Polêmico, não?
Cuidado ao ler essas palavras. Elite e rebanho não são coisas estáticas. Mudam toda hora. É um conflito dialético, mais ou menos. Mas nesse grau de abstração, não há síntese, apenas duas forças contrastantes se movimentando pelo decorrer do tempo.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Arte e ciência e o sublime
Um filósofo velho e inteligente (Kant) certa vez pensou que o cerne da arte estava na experiência estética. Há alguma coisa em nós que é ativada pela obra de arte, e nos torna por alguns momentos diferente. Esse efeito era a busca de quase toda a arte, pelo menos até o século XIX ou XX (não sei muito de história da arte).
O velhote chamou isso de "sublimação": o sujeito "sai de si" durante a experiência sublime, transcendendo as fronteiras da sua identidade e racionalidade, e forças inefáveis tomam conta dele.
Sublime assim é algo que desloca nossa individualidade para um plano secundário, e acentua o contato com o momento vivido: "enjoy the moment".
Pelo menos um tipo de arte (a épica? não sei o nome que dão) tem como objetivo produzir essa sublimação entre os apreciadores.
Mas, se a sublimação é um "sair da individualidade", ela tem muito a ver com ciência. Afinal, os cientistas ao trabalhar seguem regras determinadas, e desejam tirar ao máximo os vieses pessoais que podem danificar seus conhecimentos.Querem fazer algo que não valha somente para eles ou um grupo específico, mas para qualquer coisa encaixável nas suas geometrias analíticas.
O sublime está na arte como objetivo, assim como está na ciência como método. Viva!
O velhote chamou isso de "sublimação": o sujeito "sai de si" durante a experiência sublime, transcendendo as fronteiras da sua identidade e racionalidade, e forças inefáveis tomam conta dele.
Sublime assim é algo que desloca nossa individualidade para um plano secundário, e acentua o contato com o momento vivido: "enjoy the moment".
Pelo menos um tipo de arte (a épica? não sei o nome que dão) tem como objetivo produzir essa sublimação entre os apreciadores.
Mas, se a sublimação é um "sair da individualidade", ela tem muito a ver com ciência. Afinal, os cientistas ao trabalhar seguem regras determinadas, e desejam tirar ao máximo os vieses pessoais que podem danificar seus conhecimentos.Querem fazer algo que não valha somente para eles ou um grupo específico, mas para qualquer coisa encaixável nas suas geometrias analíticas.
O sublime está na arte como objetivo, assim como está na ciência como método. Viva!
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Faz parte da educação humana
"Uma pessoa que não pode fazer certa quantidade de trabalho estereotipado não é um indivíduo saudável."
George Herbert Mead
Na vida, nem tudo são flores. Não se pode fazer sempre o que quer, e saber ceder é tão importante quanto valorizar o ganho.
George Herbert Mead
Na vida, nem tudo são flores. Não se pode fazer sempre o que quer, e saber ceder é tão importante quanto valorizar o ganho.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
A erupção da comunidade na linguagem
Quanto mais forte uma comunidade, mais
consensual ela é. Os indivíduos expressam diversas proposições que outros tomam
e discordam, expondo um argumento divergente. No entanto, todas as proposições
elaboradas são tomadas à luz do que a comunidade consideraria. Como disse
Wittgenstein, não existe linguagem privada. As proposições existem para um
indivíduo tomar como objeto e reagir a ela: e quanto mais forte a comunidade,
mais convergente será essa reação com sua fonte. Em outras palavras, a
linguagem expressada por um indivíduo é sempre elaborada à luz de uma futura
audiência, seja ele mesmo, seja um “outro generalizado”, que é a abstração de
todas as outras forças que emitem ações significativas. Assim, todas as crenças
existem por sermos autoconscientes e empáticos (vemos que outros também têm
consciência). Mesmo se acreditamos que ela é “somente uma opinião”, ela foi
elaborada à luz de uma audiência (ao menos nós mesmos) que deve aceitá-la. Caso
contrário estamos sendo irracionais.
Um bom exemplo de força comunitária que gera
consensos é uma partida de futebol: todos os jogadores sabem como se devem
portar, quais regras seguir e o como devem reagir em diversas eventualidades,
desejáveis ou não. Aqui, há muito menos dissenso do que em uma arena política,
ou em uma sala de aula de sociologia nos tempos atuais. Os gestos a serem
feitos estão programados, assim como as reações a outros gestos dos demais
participantes.
Entender como jogar um jogo, quais regras
seguir e o que esperar dos outros, é uma etapa importante na socialização e na
composição de um Eu (Mead).
Se a comunidade brasileira fosse uma entidade
única, não haveria dissensos jamais. Sobre nada, porque todas nossas concepções
são formuladas à luz de uma comunidade (o outro generalizado). É a audiência de
nossas expressões.
E com tantos dissensos, nos debates políticos,
nos valores culturais, nas visões sociológicas, pergunto: onde está nossa
comunidade? Parece que andamos para uma fragmentação social que sabe-se lá no
que vai dar. Não sei se era diferente antigamente, mas provavelmente estamos
numa era mais plural quanto aos grupos que compõem uma sociedade. O
pós-marxismo, por exemplo, abandonou o tradicional dualismo marxista em favor a
uma multitude de grupos em conflito pelo poder.
Clamo pelo resgate do consenso e o
fortalecimento de nossa comunidade, baseada em valores universais – tolerância,
compromisso e diligência.
Autores inspiradores: George
Herbert Mead, Erving Goffman, Ludwig Wittgenstein e Jurgen Habermas. E um pouco de Mussolini hehe.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Capítulo da roda punk
A nossa juventude ama o luxo, é mal educada, zomba da autoridade e não tem nenhuma espécie de respeito pelos velhos. As crianças de hoje são tiranas. Não se levantam quando um velho entra numa sala, respondem a seus pais e são muito simplesmente más.
Sócrates (430-399 a.C.)
Não tenho nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o mando amanhã, porque estes jovens são insuportáveis e não têm moderação. Simplesmente terrível.
Hesíodo (720 a.C.)
O nosso mundo atingiu um estado crítico. Os filhos não escutam os seus pais. O fim do mundo não pode estar longe.
Inscrição no túmulo de um sacerdote egípcio (2 000 a.C.)
Esta juventude está podre desde o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Não serão nunca a juventude de outrora. Os jovens de hoje não serão capazes de manter a nossa cultura. Inscrição numa olaria da Babilônia (2 500 a.C.)
Um pouco por toda a parte, predomina a ideia de que a experiência pessoal constituiria a personalidade e se incluiria em sua essência. Tortura-se o espírito para fabricar "experiências pessoais", na convicção de que isso constitui atitude digna de uma personalidade e, quando não se alcança resultado, pode-se, ao menos, assumir o ar de possuir essa graça. Outrora, em língua alemã, a "experiência pessoal" era chamada "sensação". E creio que, naquela época, tinha-se ideia mais clara do que seja a personalidade e do que ela significa.
Max Weber (1918 d.C)
O rock de Brasília viveu um capítulo da roda punk em 6 de junho de 2013. Foram dois deuses em conflito. Cada um com sua razão de ser; o choque foi natural. E como em qualquer conflito, quem pensa bem julga que todos estavam errados.
Quatro bandas de rock tocando num pub quarta-feira. Um evento que era pra ser blasé. Começava cedo e acabava cedo, e não era pra ninguém curtir pala wasted. Cédulas de votação para os presentes, que analisariam as bandas e escolheriam a que pensavam ser a mais legal. 15 minutos para cada banda, tempo curto e que não dava para uma real degustação. Isso ia ficar pra vencedora apenas, e estavam ainda no primeiro turno da seleção. Das quatro, uma ia lutar contra outras duas, a serem escolhidas nas semanas seguintes.
Primeira banda, protocolo estava sendo praticado. Quarto da Bia! Tocou um som finíssimo, como sempre. Perguntou se a gente queria fritar. Que tipo de fritação? Eu prefiro a minha com azeite de oliva extra virgem, mas respeito quem gosta de uma banha.
Segunda banda, Rios Voadores. Saí para fumar um palheiro, quando terminei a banda tinha acabado. Mas eles ganharam a votação: mina cantando e som palatável. Agradou aos ouvidos do deus dominante, que tinha a palavra final para selecionar a banda vencedora.
Foi aí que...
O deus inimigo chegou! Se chamava Véia Tonha. Terminei o palheiro e resolvi entrar para curtir o som deles. Mas o terreno do deus dominante tinha sido atacado: o deus representado pela Véia Tonha desceu do palco, invadindo o espaço sagrado que não lhe pertencia! Isso foi visto como uma ofensa pelo outro deus, que tratou de apaziguar a situação. O Véia Tonha não gostou, achou aquilo uma ofensa ao seu deus. É claro que achou, é um deus rival daquele que dominava a situação.
Mas o rock ignora esses deuses, são pormenores da vida cotidiana que não abalam sua essência: a produção de um som maneiro, que agrade aos ouvidos de muitos apreciadores do verdadeiro deus em questão: aquele da música...
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Contra o simulacro acadêmico
Ler o mínimo sobre alguma coisa, e imaginar saber o máximo sobre outra ela e outras coisas relacionadas.
Esse é um mote para novos acadêmicos, que desejam se afastar do "Último Tango do Valor". A situação da distribuição de diplomas atual, e "saberes", constitui uma dança de pessoas aprendendo pedaços de conhecimento, por bits de informação.
O que acontece então é a simulação das diversas cópias, do conhecimento fragmentado em um monte de bons autores, mas nos quais não captamos a unidade, alguma coisa que vá constituir um valor. Ficamos regurgitando especificidades, sem cristalizar uma força.
O bom homem do século XXI, aquele que desejo ser, não tem mais medo desse sectarismo da produção acadêmica. Ele não se importa com seu pequeno disco rígido (cérebro), que não pode absorver muita coisa, e daí pressupõe só poder falar coisas mínimas. Ele vai além dessa máquina distribuidora de diplomas, elabora conteúdo místico por suas experiências, vivas e estruturadas dentro de um mundo de cópia.
O mundo de cópia não está mais para ele. O gravador de CD/DVD foi queimado. Mas ainda resta a memória RAM.
Esse é um mote para novos acadêmicos, que desejam se afastar do "Último Tango do Valor". A situação da distribuição de diplomas atual, e "saberes", constitui uma dança de pessoas aprendendo pedaços de conhecimento, por bits de informação.
O que acontece então é a simulação das diversas cópias, do conhecimento fragmentado em um monte de bons autores, mas nos quais não captamos a unidade, alguma coisa que vá constituir um valor. Ficamos regurgitando especificidades, sem cristalizar uma força.
O bom homem do século XXI, aquele que desejo ser, não tem mais medo desse sectarismo da produção acadêmica. Ele não se importa com seu pequeno disco rígido (cérebro), que não pode absorver muita coisa, e daí pressupõe só poder falar coisas mínimas. Ele vai além dessa máquina distribuidora de diplomas, elabora conteúdo místico por suas experiências, vivas e estruturadas dentro de um mundo de cópia.
O mundo de cópia não está mais para ele. O gravador de CD/DVD foi queimado. Mas ainda resta a memória RAM.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Na aula de sociologia
Ontem, durante uma aula de teoria sociológica clássica, estávamos debatendo sobre o conceito de "atitude blasé" presente em "As grandes cidades e a vida do espírito" de Georg Simmel. Durante a conversa eu sugeri uma significação que extrapolava o uso do conceito por Simmel. O professor e os outros alunos não gostaram muito, e percebi que eles tinham necessidade de se imaginar no ideário histórico simmeliano.
Penso que seria legal fazer uma filosofia também, bastante produtivo para todos pela chance de chegar a novos territórios conceituais. A história da sociologia pode se mesclar com exercício de filosofia, e claro, também de sociologia - mas essa última estava presente em sala (ainda bem).
Saí da aula pensando a sociologia ser mais ortodoxa em sua relação com os conceitos. É comum nas aulas que quando alguém sugere alguma significação ousada para um conceito, respondam "Ah mas Weber não queria dizer isso." Se limitam ao escrito, quando o mais importante muitas vezes está nas entrelinhas...
Ontem pensei em um pequeno quadro epistemológico:
Conceito = conjunto de significados
Teoria = conjunto de conceitos articulados por certas regras
Doutrina = teoria dogmatizada
Penso que seria legal fazer uma filosofia também, bastante produtivo para todos pela chance de chegar a novos territórios conceituais. A história da sociologia pode se mesclar com exercício de filosofia, e claro, também de sociologia - mas essa última estava presente em sala (ainda bem).
Saí da aula pensando a sociologia ser mais ortodoxa em sua relação com os conceitos. É comum nas aulas que quando alguém sugere alguma significação ousada para um conceito, respondam "Ah mas Weber não queria dizer isso." Se limitam ao escrito, quando o mais importante muitas vezes está nas entrelinhas...
Ontem pensei em um pequeno quadro epistemológico:
Conceito = conjunto de significados
Teoria = conjunto de conceitos articulados por certas regras
Doutrina = teoria dogmatizada
terça-feira, 30 de abril de 2013
O anti-simulacro - pt.1
O professor de sociologia Jean Baudrillard foi um dos primeiros a tratar do tema da simulação cultural como estruturante ético. A ética burguesa [pós?] moderna sempre teve o hedonismo como valor e parte da vida prática. O que houve, diz Baudrillard, foi que ele cresceu tanto que suplantou outros valores, como a metafísica, o filosofar, a religião e a honra.
Na verdade, até falar de "hedonismo" dessa forma não convém. Para tratar do seu objeto de pesquisa, Baudrillard recorre a tornar sua fala ela própria o objeto da crítica. Ele está "jogando o mesmo jogo". As razões não são muito claras, mas como ele mesmo diz em entrevista: "Sou um dissidente da verdade. Não creio na ideia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses."
No século XXI estamos vendo uma produção massiva de produtos culturais que podem ser acessados qualquer hora do dia pela Internet. A Rede possui material infinito para entreter uma vida. Esse material pode mesmo ser chamado de cultural? Não no sentido clássico.
Antigamente, qualquer produto cultural estava ligado à vida daqueles que o consomem, podendo ser usado para ilustrar um pouco de como vivia uma comunidade ou sociedade, ou uma classe.
Para tratar de cultura de forma sociológica - como a existência da cultura se desenvolve socialmente - não podemos mais utilizar essas categorias sociológicas clássicas, diz Baudrillard. Elas perderam toda sua utilidade por não fazerem referência a coisas significativas (nos seus termos, ao real).
O que substitui esse quadro é o simulacro. Basicamente quer dizer que a sociedade de consumo se tornou um motor autótrofo. Vemos filmes, ouvimos música, lemos livros para passar o tempo. Eis o limite; não se faz relação do que se consome com um sentimento de referência a algo fora do plano da experiência imediata.
O simulacro é o reflexo do desencantamento do mundo e do politeísmo de valores. É o campo onde se consome a cultura, infinitamente. É a diversão pela diversão, a informação pela informação. Fim da referência.
Fazer crítica, por exemplo, virou fazer propaganda de uma opinião.
Na próxima parte vou sugerir o anti-simulacro como oposição bizarra a essa situação!
Na verdade, até falar de "hedonismo" dessa forma não convém. Para tratar do seu objeto de pesquisa, Baudrillard recorre a tornar sua fala ela própria o objeto da crítica. Ele está "jogando o mesmo jogo". As razões não são muito claras, mas como ele mesmo diz em entrevista: "Sou um dissidente da verdade. Não creio na ideia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses."
No século XXI estamos vendo uma produção massiva de produtos culturais que podem ser acessados qualquer hora do dia pela Internet. A Rede possui material infinito para entreter uma vida. Esse material pode mesmo ser chamado de cultural? Não no sentido clássico.
Antigamente, qualquer produto cultural estava ligado à vida daqueles que o consomem, podendo ser usado para ilustrar um pouco de como vivia uma comunidade ou sociedade, ou uma classe.
Para tratar de cultura de forma sociológica - como a existência da cultura se desenvolve socialmente - não podemos mais utilizar essas categorias sociológicas clássicas, diz Baudrillard. Elas perderam toda sua utilidade por não fazerem referência a coisas significativas (nos seus termos, ao real).
O que substitui esse quadro é o simulacro. Basicamente quer dizer que a sociedade de consumo se tornou um motor autótrofo. Vemos filmes, ouvimos música, lemos livros para passar o tempo. Eis o limite; não se faz relação do que se consome com um sentimento de referência a algo fora do plano da experiência imediata.
O simulacro é o reflexo do desencantamento do mundo e do politeísmo de valores. É o campo onde se consome a cultura, infinitamente. É a diversão pela diversão, a informação pela informação. Fim da referência.
Fazer crítica, por exemplo, virou fazer propaganda de uma opinião.
Na próxima parte vou sugerir o anti-simulacro como oposição bizarra a essa situação!
sexta-feira, 26 de abril de 2013
manifesto pardonazi
[prolegômenos]
O que é um pardonazi? Vem do conceito
de pardoneira; e talvez seja impossível não fugir do clichê da autorreflexão. Ao
me perguntar sobre sua natureza a invoco no estado presente das coisas. Estou
pardonando zela. Mas isso não faz muita diferença, porque um verdadeiro
pardonazi nunca irá ler esse texto. É impossível que isso aconteça no estado
atual do conceito.
No pardonazi, a ideia de pardonazi é
uma grande pardoneira que se dissolve por completo nas suas ações. Qualquer
sugestão de filosofia se transforma em ações e faltas de idéias que são um
combustível que alimenta a coisa toda. Falar de pardonazi é então matá-lo e
invocá-lo ao mesmo tempo, porque só um não-pardonazi pode falar do pardonazi,
mas para isso tem que entrar em seu
território.
O não-pardonazi vê sem receio esse deslocamento,
porque não sente desconforto com o pensamento alienígena. Existem vários
mundos, e todos eles são habitados. A pardoneira tenta conectar esses mundos
por uma substância primordial, que aparenta ser mijo (urina). E o que pensar sobre o mijo? É apenas mais uma pardoneira a
ser eliminada. O mundo do pardonazi é portanto um só, e eliminou o seu Criador.
A mijada no entanto permanece, e ela aponta para vários lugares!
O grande desafio para o não-pardonazi é
tentar fugir do imenso jato de urina pardonazi que está apontado para ele. Mas
ele vê a tragédia quando olha pra si mesmo e se vê encharcado de mijo, com um
ranço de ureia que não sai. Percebe então que mergulhou fundo na pardoneira, e
sem saber estava adorando nadar em uma piscina toda mijada.
O não-pardonazi visualiza uma solução.
Virar um soldado. Tentar usar armas para matar o pardonazi. Nesse ponto ele já
está maduro. Sabe que sua faca, seu rifle, sua bazuca, são feitas daquele
material que odeia. Sim. O xixi. Mas não importa mais. Ele encarnou um
pardonazi, e com isso eliminou a reflexão não-pardonística.
O resquício do não-pardonazi nele jaz sobre
sua pergunta fundamental: tentar limpar o mijo do mundo, ou jogar um mais
fedido? Eis uma grande pardoneira...
domingo, 21 de abril de 2013
Dualismo, tempo e espaço.
Esse texto é quase incompreensível, isso porque ele quer dar o mesmo valor a prestar muita atenção a ele ou não.
O Dualismo é dividir o mundo em dois. O que tem de um lado é o tempo,
e do outro o espaço. E tempo passa, e as coisas mudam de lugar. Só da pra ver o
tempo passar, porque as coisas estão mudando de lugar. Se tudo ficasse onde
está o tempo todo, um dia não seria diferente do outro. E as coisas mudam de
lugar com o passar do tempo. As pessoas comuns traçam calendários e contam os
anos de forma linear, tempos até uma Era Comum, de dois milênios atrás. Existem
povos que pensam no tempo de forma cíclica, mas isso ficou estranho com o
advento da Física moderna. Cremos que o nosso universo nascera há mais ou menos
14 bilhões de anos. E mais ou menos sabemos para onde estamos indo: o Sistema
Solar se direciona para o buraco negro no centro da Via Láctea. Não há
evidências de circularidade, o tempo passa em linha reta no sentido biológico
individual: alguém nasce, vive e morre, e não se repete.
Tempo circular
No entanto,
em termos lógicos tudo acontece infinitas vezes. Imagine se o tempo for linear:
começo, meio e fim. Se houve um começo, então “antes” não havia tempo. Mas se “antes”
não havia tempo, havia pelo menos um mecanismo que possibilitasse que o tempo
surgisse. E quando o tempo termina, vemos uma atemporalidade com esse mesmo
mecanismo. Antes do começo e depois do fim são iguais. E disso tiramos que o
tempo é infinito, e que o espaço (que é o que define o passar do tempo) sempre
tem chance de se dispor de uma forma que já aconteceu antes. Mesmo que a chance
seja baixa, uma hora isso deve acontecer.
Isso deve
ser mais fácil de ser visualizado com sinais matemáticos:
Tempo = x Espaço = y
Se não-x è x è não-x, então não-xèxènão-xèx=>não-x ad
infinitum. E o mesmo vale para y.
Mas isso
são coisas muito abstratas nas quais não se vive. É o aspecto filosófico da coisa que tem um aspecto ético que é: viva bem! Nietzsche falou
bastante disso, e não tem mais o que falar disso, só redescrever.
O dualismo prescreve que exatamente
o contrário de tudo existe. Então tempo é circular e linear.
Isso porque pensamos no esquema “se não-x
è x è não-x, então não-xèxènão-x” numa situação x¹èx²èx³... e y¹èy²èy³... ou seja, não tem nada a ver
pensar em um não-x ou não-y. Porque não são realmente nada. Melhor ir cuidar do
jardim.
Conclusão: melhor ser pragmático; o tempo é circular se te agrada que o seja. Mas ele parece ser linear.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Hitler e Porta dos Fundos
O que diabos têm esses dois vídeos em comum?
Quem assiste ao vídeo de Hitler é igual ao povo que Moisés tenta iluminar no vídeo da Porta.
O espectador não nazista de Hitler tem o mesmo olhar de ceticismo dos hebreus, céticos quanto aos verdadeiros interesses de Moisés.
Se os mesmos hebreus estivessem debatendo com Hitler, falariam para ele:
"Caralho Hitler, tu tá falando merda pra caralho hein! Que porra de virar uma só nação, fazer parte da massa o quê... massa de cu é rola! Quando nada restar de nós, a gente vai levantar um pavilhão? Cê tá doidão mesmo hein? Para de transar com esses seus pastores alemães..."
Nós vemos com ceticismo o propósito de Hitler, de animar as massas, elevar seus espíritos. Após a Segunda Guerra virou feio fazer populismo a la Hitler.
E podemos rotular o naipe do discurso de Hitler e de Moisés com uma mesma palavra: profético. Eles estão operando na mesma vibração pra conquistar sua audiência, apelando pro carisma, coisa que o Moisés não tem!
Um elemento humorístico da Porta é esse Moisés paspalho! O outro elemento está na audiência: os hebreus ouvintes são céticos e racionais. Para eles, nada aquilo convence porque eles veem o Moisés estrategicamente, como escondendo seus reais interesses.
Nós somos iguais esses hebreus ao assistir ao discurso de Hitler: o vemos como uma estratégia para manipular as massas, convencê-las a "fazer merda". Somos céticos e racionais, e o carisma de Hitler não nos envolve.
E QUAL ERA O POVO A SER EXPURGADO DA ALEMANHA NAZISTA? OS HEBREUS (JUDEUS).
O século XXI é o século judeu.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Ciências Sociais e Emancipação
O verdadeiro poder emancipatório das Ciências Sociais está no olhar clínico, e não na imaginação fértil!
(pelo menos ela entretém hehe).
(pelo menos ela entretém hehe).
sexta-feira, 8 de março de 2013
H.P. Lovecraft – O estrangeiro; Análise
"A coisa mais piedosa do mundo, penso, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todo seu conteúdo." O Chamado de Cthullu
Estive a ler alguns contos do
mestre da ficção macabra Lovecraft. Ele foi uma das referências para o escritor
de horror moderno Stephen King, e continua sendo aplaudido por sua qualidade. Alguns
produtos culturais modernos são decorrentes de sua obra: bandas de death metal,
jogos de RPG e videogame; oferecem continuidade ao seu legado.
Um dos contos que mais chamou minha atenção foi The Outsider. Encontrei uma versão traduzida para o português à venda, em formato netbook. É um dos contos mais inspirados por Edgar Allan Poe, de quem Lovecraft era fã.
O conto apresenta um apologia ao esoterismo, seguida de decepção em relação a este. Vejamos:
O protagonista é um ser que mora em um castelo, desde que se entende como "gente". Não se lembra de nenhuma outra pessoa, nenhum contato com outro. Sempre esteve no castelo. E nunca conseguiu sair de lá, pois era rodeado por uma floresta da qual tinha medo de se aventurar por muito tempo. Ele sabia da existência do mundo anterior por uma coleção de livros antigos, os quais lia com uma vela. Nunca tinha visto o sol: o céu era escondido por uma densa camada de árvores. Viveu na escuridão, além do fluxo do tempo.
O protagonista vivia no mundo "exotérico": do conhecimento raso, desconhecendo o verdadeiro conhecimento, a iluminação. Seu mundo era escuro, e tudo que sabia não lhe causava orgulho. O importante estava além dele (fora da caverna de Platão), e para chegar lá era necessário esforço. A verdade está lá fora. Mas não é fácil de ser encontrada! Eis o esoterismo: crer em um conhecimento de grande valor, de difícil acesso (mas que existe).
Havia apenas uma torre que se estendia além da camada arbórea. Mas era impossível subir, a escada estava quebrada...
Sem me estender sobre a história... (melhor ler o conto!) Apenas digo que a metáfora segue: o conhecimento de valor é atingido, uma grande comoção acontece. Mas e então... Pimba! Eis que o lado de fora não é tão bom assim, as verdades reveladas são contundentes, sombrias e desanimadoras (para não falar desastrosas, lamentáveis e aterrorizadoras). Tentar voltar ao mundo anterior, do estado estoico de passividade em relação ao passar do tempo, sem abalos positivos nem negativos, já não é possível: ao perscrutar a verdade, voltar para a ignorância já não é mais possível!
É um conto de mágoa em relação à realidade. Seria a verdade dura e cruel, e o melhor nos mantermos isolados dela, em nossos "pântanos de felicidade"? A literatura de Lovecraft expressa uma forte concepção de universo indiferente aos pequenos humanos que o habitam... Vários de seus personagens sentem isso na pele (vivem essa verdade). O que é fonte de loucura!
Conto em inglês: http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/o.aspx
Análise boa em inglês: http://www.bewilderingstories.com/issue208/outsider_article.html
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