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terça-feira, 3 de maio de 2016

Aceleração do entretenimento

Ontem, na CBN, escutei um youtuber chamado Felipe Castanhari falando sobre entretenimento. O Youtube, disse, é muito diferente do modo tevê/rádio de criar conteúdo para entreter. E citou como exemplo seu primo de oito anos, já um youtubeiro.

O menino assiste aos vídeos com a seta do mouse em cima do botão X da aba do navegador: ele quer apenas uma razão para fechar o vídeo. Se há uma pausa, um mísero momento de "zero-entretenimento", ele fecha a janela.

Castanhari diz que esse é um dos aspectos diferenciais de vídeos do Youtube: há muitos cortes para minimizar as pausas e comprimir ao máximo o conteúdo naquilo que seria relevante.

Sinceramente, para mim isso é algo preocupante. Tem a ver com um assunto que já escrevi anteriormente: as pessoas querem se divertir o tempo todo, e ignoram a necessidade da chatice e frustração na construção do caráter. Errando que se aprende tem sua versão no entretenimento: às vezes a diversão está em andar por um caminho difícil, penoso, para depois ser premiado. Isto é divertido também!

Não sei se há de fato uma acentuação do fenômeno. É apenas uma impressão: as pessoas estão cada vez mais folgadas, querendo tudo de mão beijada. Posso estar enganado; mas isso parece uma consequência lógica da modernização, afinal, se a dificuldade gera o esforço, a facilidade deve gerar algo contrário. Não?

Costumo ser cético quanto a essas percepções. "O mundo não é mais o mesmo." "As pessoas estão mudadas." "Tá tudo diferente."Vejo com maus olhos, apesar de haver estudos confiáveis. Mesmo que haja essa aceleração da vida, que deixa os jovens menos concentrados, indispostos a ficar 30 minutos pensando num assunto e perdendo rapidamente o interesse por algo que desviou um pouquinho da rota da diversão, enfim, mesmo que haja isso, ainda há jogos como Dark Souls, que exigem uma paciência de Jó. E fazem sucesso.

Mesmo que estejamos na era da aceleração, ainda temos aqueles que veem na dificuldade e superação uma fonte de entretenimento, quiçá superior a todas as outras.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Sobre a pós-ironia

Em inglês, na Wikipédia, temos dois verbetes que conduzem ao assunto: Post-Irony e New Sincerity.

É uma ideia bem trabalhada no romance Graça Infinita (Infinite Jest), do qual já comentei aqui alguma vezes. Consiste numa tentativa de recuperação da sinceridade e busca por uma comunicação genuína entre artista e receptor, que caracterizou a arte...bem, desde sempre, até o século XX:

As vanguardas literárias, a partir mais ou menos de 1960 (cf., por exemplo, tudo do Thomas Pynchon e Macunaíma do Mário), passaram a ironizar a realidade, distorcê-la em humor negro que até então era inovador, tanto no âmbito crítico como no estético.

Caçoar da televisão, dos Beatles, de uma parte da cultura brasileira, das intrigas amorosas da classe média (Nelson Rodrigues), etc. foi uma forma de inovar e ao mesmo tempo construir conteúdo significativo a longo prazo.

Mas então, a ironia deixou de ser vanguarda e passou a ser lugar-comum. A vemos na cultura pop banalizada, onipresente. Como usá-la, então, para trazer algo edificante, se tornou-se apenas uma ferramenta de reprodução do entretenimento raso?

A solução vanguardista foi a pós-ironia. Trata-se de conceber o mundo como um lugar irônico, porém buscando uma tentativa de superação desse mar defensivo por meio de espécie de jornada espiritual, de busco do Sentido da Vida. Chamo a ironia de mar defensivo, pois é uma "saída para tudo": é como bancar o idiota: você se torna imune a quaisquer críticas quando não as leva a sério.

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Acaba de vir uma epifania: se a pós-ironia é uma tentativa de superação do mundo irônico, ainda faltam livros que tratam o tema em mais de um personagem, e com os personagens dialogando de forma não irônica. E como será isso? Creio que será algo meio Irmãos Karamázov, mas será interessante ver tal situação operando em um meio irônico. 
Algo do tipo: imagina Dostoiévski cruzando com Hermes e Renato, onde o russo tenha um pouco mais de participação de mentalidade além de ser espécie de "luz no fim do túnel".

Em Graça Infinita, o personagem pós-irônico é Mário Incandenza. E Don Gately. Mas os dois nunca se cruzam...

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Retirei alguns memes que lidam com o tema do ótimo "site de artes/humanas" (estou sendo pós-irônico) The Philosopher's Meme. Falarei mais sobre eles em outro post...



Eis um meme pós-irônico em ação.



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Poema de Bruno Latour

nós
não temos mais certeza
sobre o que
"nós"
significa:

parecemos
estar atados (por)
"nós"
que não se parecem com
nós sociais regulares.


Fonte:
http://dss-edit.com/plu/Latour_Reassembling.pdf
página 6.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Contra o simulacro acadêmico

Ler o mínimo sobre alguma coisa, e imaginar saber o máximo sobre outra ela e outras coisas relacionadas.

Esse é um mote para novos acadêmicos, que desejam se afastar do "Último Tango do Valor". A situação da distribuição de diplomas atual, e "saberes", constitui uma dança de pessoas aprendendo pedaços de conhecimento, por bits de informação.

O que acontece então é a simulação das diversas cópias, do conhecimento fragmentado em um monte de bons autores, mas nos quais não captamos a unidade, alguma coisa que vá constituir um valor. Ficamos regurgitando especificidades, sem cristalizar uma força. 

O bom homem do século XXI, aquele que desejo ser, não tem mais medo desse sectarismo da produção acadêmica. Ele não se importa com seu pequeno disco rígido (cérebro), que não pode absorver muita coisa, e daí pressupõe só poder falar coisas mínimas. Ele vai além dessa máquina distribuidora de diplomas, elabora conteúdo místico por suas experiências, vivas e estruturadas dentro de um mundo de cópia.

O mundo de cópia não está mais para ele. O gravador de CD/DVD foi queimado. Mas ainda resta a memória RAM.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O que é uma lombra?

Finalmente cheguei à equação que disseca o que é uma lombra. Segue:

Lombra = Logocentrismo + quebra do logos vigente com valência positiva.

Elaborei em um outro post o que seria logocentrismo. No texto afirmei que seria a tendência em pensar o discurso da filosofia e ciência, baseado na lógica e razão, como superior a outros, como da literatura e arte.

Mas há outro <<sentido>>, o da tendência em se acomodar por um determinado estado de espírito em uma dada conjuntura, sentindo dificuldades com ondulações desse estado. Nessa visão, lógica ou logos assume o sentido de sistema de signos, quadro de referência, estrutura semiológica ou qual seja o nome que se dê àquilo que está no cerne da ideologia pós-estruturalista:

O sentido de qualquer coisa, ou qualquer forma de conhecimento, só é possível em relação a outras coisas dentro de uma estrutura 'x'. Os objetos dentro de 'x' interagem mediante um logos 'y'.


Linguagem e todo o conhecimento derivado dela, experiências religiosas, só têm sentido mediante um enquadramento em uma estrutura!


O melhor exemplo de como o logocentrismo age nesse sentido é no nosso período pré-sono: quando estamos quase dormindo, ficamos em um estado tranquilo, submerso em pensamentos. Se tomamos um susto, é difícil voltar logo para a tranquilidade!

E o que isso tem a ver com lombra? Tudo, porque a lombra é aquilo que é "inesperado e bom". Pronto resumi. [me submeti a ser mal-interpretado, mas tudo bem...]

Inesperado = quebra do logos vigente

Bom = valência positiva





quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Que é Logocentrismo?


Filme "Amor, Estranho Amor".
  

Em uma conversa despretensiosa de dois amigos jovens (G e H), o assunto centra-se em Xuxa Meneghel, outrora conhecida como Rainha dos Baixinhos. Estando ambos na faixa dos vinte e sendo brasileiros, conviveram com a figura midiática da loira ao longo de suas vidas. As lembranças mais vivas são obviamente as polêmicas envolvendo a “animadora de criança”. O filme de caráter pedófilo e sua cena histórica, da moça oferecendo o peito para um menino brincar tornou-se referência para muitos, quando se fala em Xuxa.

Os dois amigos tratam de não quebrar esse padrão, afinal, o mais interessante em Xuxa é sua vida sexual. O resto que se foda! Eles teorizam que a Xuxa deve gostar muito de sexo porque desde cedo esteve em contato com ele. Essa imagem foi reforçada pela entrevista que a Rainha deu ao “Fantástico”, na qual conta que sofreu abuso quando púbere. G assistiu à entrevista, enquanto H apenas soube de sua existência.

E a conversa segue nesse tom. Na mente dos dois, a imagem da “Xuxa safada” reforça-se pelo vídeo “Ta duro, Mussum”, que ambos assistiram no YouTube. No vídeo Mussum dá uma encoxada em Xuxa e ela sente a jeba dele, afirmando que ela está erguida!

Falam de Pelé e Senna. A Rainha dos Baixinhos fornicou com o Rei da Bola e o Rei das Pistas (mas em momentos distintos). G diz ao amigo: “Só faltou o Rei do Pop” – A loira em um momento esteve atraída pelo astro Michael Jackson e desejava fazer sexo com ele.

A afirmação de G sobre a pretensão de Xuxa deixou H espantado e com a cabeça quente. “Quem gostaria de transar com aquele cara bizarro?”, H imaginou que Xuxa deveria ter algum problema mental para justificar esse seu interesse, talvez algo a ver com fetiche por “Reis”.

A surpresa e energia de H dedicada a essa “lombra” foi reforçada (talvez inconscientemente) pelo fato de G ter assistido à entrevista de Xuxa no Fanstástico e H não. Ou então H assumiu que G soube do fato por algum medium semelhante.

No dia seguinte, H descobre que a “lombra do Michael” foi veiculada por Gil Brother, em seu canal “Away Nilzer” do YouTube. Gil Brother é um doidão que pega vários assuntos circulando pela Internet e comenta de maneira peculiar, com uma grande dose de xingamentos e sermões, além de sua imaginação ter grande influência em como ele percebe o assunto.

H fica desconcertado ao perceber que Xuxa não queria transar com Michael. Algumas pessoas imaginaram isso apenas. Toda sua maquinação mental do dia anterior desperdiçada! O Gil Brother não é fonte alguma de conhecimento. Se G tivesse dito “o Gil Brother falou que...”, H gastaria bem menos energia com a informação dada.

Eis o logocentrismo: nós ocidentais valorizamos (inconsciente ou conscientemente) muito mais a simbologia das palavras quando elas têm uma referência no “mundo externo”, quando aquilo “existiu de verdade”.

Afinal, um filme de terror não dá mais medo quando é “baseado em fatos reais”?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O sujeito fragmentado

"Reelaborar-se a cada circustância." Tal prescrição sintetiza a noção de subjetividade pós-moderna?

Sim e não.

Compreender a ironia trágica dessa resposta ("Sim e não.") é um passo a frente para desvelar o sentido do eu fragmentado: se tomarmos como prescrição o "reelaborar-se", este assume a postura dos conceitos rígidos que o pós-modernismo busca relativizar. A "atitude pós-moderna" exige uma postura epistêmica (e seu reflexo na postura estética) de <<precaução>> em relação ao conhecimento, imagens, cultura, etc.

Vejo uma conexão entre esse posicionamento defensivo (uma vez que prepara o sujeito contra hipervalorizações de crenças) e o que Bruce Lee chamou de estar conscientemente inconsciente ou inconscientemente consciente: o nirvana! Uma das exigências do nirvana é encarar o sujeito como esse fragmento condicionado pelo "texto" (sua conjuntura de existência e desenvolvimento).

Após ler o que ficou conhecido como "Caso Sokal", percebi que o terreno da epistemologia anda bagunçado. Sokal é um físico que escreveu um texto relacionando física quântica com pós-modernismo, e conseguiu que ele fosse publicado em uma revista (Social Text). Em seguida ele escreveu afirmando que o texto era pura balela sem sentido, e queria apenas provar que em revistas "pós-modernas", se aceitaria publicar qualquer coisa sem o devido "rigor intelectual".

A meu ver, Sokal tem alguns critérios que o pós-estruturalismo (fundação epistemológica do pós-modernismo) tenta desmistificar:

1. O conhecimento deve ser algo "universal", ou seja, todos devem aceitar proposições consideradas conhecimento, as que não o fazem são tolas, chatas, pouco instruídas ou, a palavra mais clássica, irracionais.
2. A rede conceitual desse conhecimento é também universal, independente de seu interlocutor, e possui uma semântica concreta indeslocável.
3. Se a semântica de certo conceito for deslocável, ou seja, se o sujeito for ativo para o conhecimento, e não somente passivo, então esse conceito não tem validade para o conhecimento.

Existem diversas outras "críticas" à postura intelectual de Sokal (compartilhada por muitos outros). No entanto, os dois lados estão errados. De um lado, vemos um pessoal que tenta expandir o conceito de ciência, para abordar uma imensidão de epistemes (sistemas de conhecimento), o que possibilita a legitimação de textos como o de Sokal publicado na Social Text. Entretanto, o que esse pessoal faz não deve ser visto como uma "deslegitimação", mas como um "enquadramento". Encarar a ciência como possível de ser exercida sem uma dose de "arbitração" do sujeito é ingenuidade: para existir, é necessário um "recorte" em um <<sistema de referência>>.

Porém isso não tira sua qualidade. O que faz é simplesmente notar o "lugar" da ciência no conhecimento. A ciência é de fato uma subárea do conhecimento. O pós-modernismo atenta para as diversas outras áreas que também têm qualidade. Ele que possibilita por exemplo, associar aforismas de Bruce Lee com problemas de subjetividade!