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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Televisão x videogame

David Foster Wallace, aclamado escritor de quem sempre falo por aqui, costumava tecer uma crítica ao entretenimento televisivo em torno da sua superficialidade.
Segundo ele, o objetivo da TV é basicamente manter as pessoas assistindo-lhe o máximo de tempo possível. Para isso, o conteúdo deve ser cômodo, confortável, dispensando esforço por parte do espectador, que se torna um consumidor passivo. Sua literatura em larga escala foi uma tentativa de exigir do leitor certo esforço para aproveitá-la; DFW pensava que a vida não devia ser apenas uma busca por prazeres simples de alcance barato--certa dor e dificuldade eram inerentes à condição humana e eram passos inerentes à maturidade. Ele e alguns amigos viam um tipo de tristeza na América moderna, devido a tal submissão cega ao prazer imediato e plano.

Compartilho dessa ideia: um certo grau de masoquismo é importante para a construção do caráter.
A notícia abaixo, por exemplo.

Brasileiros têm de entender que estudar não é chato; chato é ser burro

 Ela tem a premissa de que chato=ruim.
Por que temos de fugir sempre do que é chato? Homo ludicus, aquele que procura sempre a diversão, tornou-se um paradigma de caráter. Isso precisa ser urgentemente desconstruído. O chato faz parte da vida e acolhê-lo melhora as pessoas, torna-as menos egoístas, mais instruídas (não deveria fazer diferença que estudar seja chato ou não--é um critério de medida estúpido), enfim: viver em sociedade devia ter ao menos um pouco de autonegação, super-ego sobre ego, e isso parece estar sumindo.
Indivíduos estão querendo ser deuses, no entanto, os que mais chegam próximos do Olimpo são aqueles cientes de que não conseguirão escalá-lo.

***
DFW falou muito sobre TV, mas nada sobre videogames.
Jogo videogames há muito tempo, e certamente ele requer trabalho do usuário, ao contrário de sua prima mais velha. Alguns jogos mais do que outros. Mas me lembro de que, antigamente, nos anos 90, os jogos eram muito mais difíceis do que hoje. Não sei como continuei jogando, era frustração atrás de frustração. Aí há uma lição de vida muito importante, a repetição aliada à paciência e ausência de insatisfação é uma grande virtude, que ajuda a desenvolver habilidades como concentração e tranquilidade

DFW fala da importância da TV para moldar a literatura de sua geração. Em seu caso, isso significa aliar uma pauta de diversão a uma pauta de comunicação de ideias complexas. Ele faz isso muito bem, e talvez mais importante, isso comunica-se com a geração atual.

Isso me levou a pensar na influência do videogame. Há alguma influência de estilo, de estrutura, de projeto?
Particularmente, acho que NES, SNES, PS1, PC games, N64 (na casa de amigos--eu tinha um Playstation) não me influenciaram em termos de projeto literário. A mecânica (RPG, plataforma, esporte, FPS, beat'em up etc.) e o gênero (ficção científica, fantasia, terror) certamente me moldaram e continuam orientando meus gostos. Mas num nível mais geracional/abstrato, enquanto membro de uma geração gamer, penso apenas que o videogame ajudou-se a gostar de livros difíceis. De certa forma estamos jogando um jogo ao tentar interpretar complexidades literárias. Jogos difíceis, que exigem "detonado" em certas partes, são análogos àqueles livros demandando consultas ao dicionário ou literatura secundária.
Claro que ler com a Internet ao lado também ajuda, mas é outra história.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Graça Infinita -- Hal Incandenza

"Como a maioria dos norte-americanos de sua geração, Hal tende a saber bem menos sobre por que ele se sente de certas maneiras quanto aos objetos e buscas a que ele está devotado, do que quanto ao objetos e buscas em si. É difícil dizer com certeza se é mesmo algo excepcionalmente ruim, tal tendência."
(minha tradução--ficou confusa? em inglês parece bem claro, e ao traduzir achei que embolou)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A fraqueza da sociedade civil no Brasil

Um pensamento corrente entre cientistas políticos é que democracias, para funcionarem de fato, precisam de uma sociedade civil forte, caso contrário, vários problemas surgirão. Os casos mais extremos estão no Oriente Médio, onde Iraque e Egito, por exemplo, experienciaram sistemas formalmente democráticos que não geraram sequer estabilidade social, muito menos desenvolvimento.

No Brasil, a evidência mais clara de uma sociedade civil fraca está na perpetuação de políticos corruptos no poder. A corrupção poderia muito bem ser combatida pelos eleitores. Contudo, o que vemos é uma baixa accountability vertical, isto é, eleitores não punem políticos por maus mandatos. Isso é bem mais evidente no Poder Legislativo e no âmbito partidário.

Claro que esse tipo de punição existe; mas sugiro que está longe do nível ideal.

***

Mas a evidência da fraqueza da cidadania no Brasil que quero salientar é outra. Está na debilidade dos políticos em representar de fato a sociedade civil. Diversas medidas e reformas políticas, para serem levadas adiante, precisam enfrentar grupos específicos, que perderão privilégios. O Governo, quase sempre, não leva tais medidas adiante, porque os grupos específicos protestam muito, e o restante da população pouco corre atrás (pudera, supostamente isso cabe aos políticos).

A notícia abaixo é exemplo de uma medida dessas que conseguiram atravessar as barreiras corporativas. A classe médica brasileira chiou muito contra o Mais Médicos, inventando inúmeras alegações que escondiam por trás o interesse da categoria em manter reserva de mercado (quanto menor a concorrência, mais valorizada é a profissão).

Felizmente, foi um raro caso onde o governo atropelou os interesses corporativos em nome de uma maioria abstrata e silenciosa -- que ficou feliz com o resultado.

Em dois anos, cubanos ganham preferência a médicos brasileiros

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sociologia do Brasil em "Grande Sertão: Veredas"

"[...] jagunço, pelo que é, quase que nunca pensa em reto: eles podiam achar normal que da banda de cá os inimigos presos a gente matasse, mas apreciavam também que Zé Bebelo, como contrário, tivesse deixado em vida os companheiros nossos presos. Gente airada..."

Nova Fronteira, 2005, p.291.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Patrimonialismo (1)

O Governo brasileiro prefere aumentar impostos para pagar funcionários a confrontá-los. Impostos indiretos que caem na conta dos mais pobres.
No Brasil, os mais pobres pagam mais impostos, que por sua vez vão para os bolsos dos mais ricos. E não são apenas políticos, mas todo um funcionalismo que, relativamente, é rico: quem ganha R$5.000 no Brasil está entre os 5% mais ricos do país -- a maior parte do dinheiro transferido diretamente às pessoas vai para o topo da pirâmide. O Estado pega dos pobres para dar aos ricos...

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Presos políticos

Certa vez um colega de faculdade me disse que "todo presidiário condenado por roubo/furto é um preso político".

Esse colega é socialista -- de alguma corrente de Esquerda que condena a propriedade privada como ato de violência irracional. Fiquei pensando na sua frase, e no que configuraria uma prisão como política.

Concluí que presos políticos são os encarcerados em razão do grupo dominante na sociedade impor sua ideologia e colocar os que desviam dela, ou que tentam tomar/minimizar o poder do grupo dominante, na cadeia. Isso fica bem claro em casos como o da Venezuela, em que opositores estão aprisionados por "conspiração" ou alguma outra desculpa para tirá-los da arena política e assegurar a manutenção do poder de Maduro e seu grupo.


Contudo, meu colega chamou condenados por furto de presos políticos. É uma opinião heterodoxa na sociedade brasileira -- quase ninguém concordaria com ele, afinal, propriedade privada é um direito praticado pela maioria. No entanto, a maioria não é juíza de certo ou errado; não é só de democracia que a justiça é feita.

Em um âmbito filosófico, podemos chamar qualquer condenação de política, uma vez que segue a doutrina de um grupo que consegue impor suas convicções para a sociedade (nem que seja um grande grupo, ainda assim ele deixa alguns de lado, no caso meu colega).
Infantilidade acreditar na lei como justiça impessoal desinteressada. Claro que reconhecer sua dimensão política não minimiza sua importância na sociedade -- a repressão e opressão* aos desviantes acompanha a história da humanidade.

No Brasil, o problema não são os presos, mas os soltos políticos.
__________

Acredito que devemos nos esforçar para manter o uso da expressão para casos muito desviantes, e tentar fortalecer uma cultura democrática, respeitando a vontade popular e desrespeitando quando ela vai de encontro a direitos de grupos minoritários.

Como disse São Tomás de Aquino, "uma lei que não segue a vontade de Deus não é uma lei, mas um ato de violência". Convertendo para o mundo moderno, afirmo: "leis irracionais devem ir para o lixo".

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* 'Existe uma interessante proximidade etimológica e conceptual entre "opressão" e "repressão". Se a "opressão" é entendida comummente como uma imposição - por exemplo através de uma força física ou de um exercício extremo de poder -, de uma submissão, a "repressão" remete frequentemente para uma ideia de controlo, redução e sujeição, muitas vezes associada a dimensões psicológicas de ação - como uma auto-opressão voluntária, tal como é explorada na psicanálise enquanto processo mental de inibição ou supressão de desejos. Mas, e seguindo a proposta de Marc Augé (1977, p. 29 e seguintes) de incrementar o escopo de reflexão sobre esse termo, a repressão também pode ser política, associada a problemas de discriminação, violação de direitos humanos, etc. Desse ponto de vista, a ideia de repressão incorpora uma gama mais ampla de significados do que a opressão, tendo a particularidade de individualizar a experiência hegemónica, permitindo refletir sobre o problema simultaneamente num plano político e experiencial.' Ruy Llera Blanes. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832012000100011&script=sci_arttext

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Civilidade

Dizer que algo não é civilizado é muitas vezes desculpa para não dizer que se está com vergonha de fazer tal coisa.

p/ + info
[Norbert Elias, O Processo Civilizador]
[Vincent de Gaulejac, As Origens da Vergonha]

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Folha de S. Paulo - Estatais aos pedaços / Coluna / Eduardo Giannetti


Os Donos do Poder é leitura obrigatória para quem quer entender a história sociopolítica brasileira - dou-lhe cinco estrelas. Um dos pontos importantes para a atualidade é a percepção do Brasil como pré-moderno, pois o irracional e contraditório tem força institucional. Nossas instituições podem parecer democráticas, mas são de fato representativas? Os políticos fazem o que o povo espera deles? O mesmo vale para o liberalismo, vivemos mesmo em uma economia de mercado? As empresas competem pela qualidade de seus produtos, ou por quais conseguem um melhor esquema com o poder público?

Se o projeto nacional em vigor é o da democracia liberal, estou convencido que ainda faltam alguns anos-luz até atingirmos um grau decente. Na prática vivemos uma oligarquia de grupos que se perpetuam no poder e impedem o desenvolvimento da sociedade civil: o Estado bloqueia a livre iniciativa, sustenta uma casta de privilegiados (altos funcionários públicos e grandes empresários), e assim vamos seguindo, com a reprodução desse padrão garantida pelo caráter de nossas instituições, que não valorizam a inovação e tampouco a competição.




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O paradoxo salta aos olhos. Temos um governo de perfil estatizante, cioso da sua orientação nacional-desenvolvimentista, mas que logrou a proeza de arrebentar nossas duas principais empresas estatais. Obra de raro descortino.
A Petrobras, orgulho nacional, não só perdeu a condição de apresentar um balanço auditado crível como será forçada a republicar balanços anteriores, corrigindo as baixas referentes ao pagamento de bilhões de reais --quem saberá ao certo?-- em propinas nos últimos anos (outro exemplo da máxima, atribuída a Pedro Malan, de que "no Brasil até o passado é imprevisível").
Já a Eletrobras, vítima da MP 579, de 2012, que antecipou a renovação das concessões de energia mediante a redução das tarifas, acaba de admitir que não disporá de recursos para pagar dividendos neste ano.
Além da queda do seu valor de mercado, com ações negociadas abaixo do valor patrimonial, a Eletrobras teve prejuízo de R$ 2,7 bilhões só no terceiro trimestre deste ano, o que inviabiliza a remuneração mínima de 6% prometida aos acionistas.
Os caminhos do inferno, é claro, diferem. A ruína da Eletrobras foi fruto das boas intenções do governo Dilma (o setor elétrico, aliás, teria sido o tema da dissertação de mestrado da presidente na Unicamp), ao passo que a devastação da Petrobras resulta, entre outras coisas, da ação articulada de profissionais: uma quadrilha de empreiteiros, burocratas, lobistas e dezenas de políticos que conferiu ao lema getulista --"o petróleo é nosso"-- inédito e inadvertido significado.
Mas existe um substrato comum a esses descalabros. Ambos refletem a deformação patrimonialista do Estado brasileiro --"o capitalismo politicamente orientado", no dizer de Raymundo Faoro em "Os Donos do Poder", que aportou por aqui com as caravelas, atravessou cinco séculos de história e foi alçado a novo patamar no atual governo.
As facetas do patrimonialismo relevantes nestes casos são 1) o microgerenciamento e a tutela do Estado sobre a atividade econômica, alterando regras e revendo contratos de forma arbitrária ao sabor de conveniências circunstanciais e 2) o condomínio do poder calcado na simbiose promíscua entre público e privado aliado ao loteamento de órgãos e empresas estatais como forma de cooptação política.
A probabilidade de existir corrupção aumenta à medida que os governos se envolvem em todos os meandros da economia. A debacle da Eletrobras e o escândalo da Petrobras chocam pela magnitude, mas estão em perfeita linha de continuidade com a atual recaída patrimonialista.
O Brasil carece de instituições que mantenham os cidadãos e a economia a salvo dos abusos, inépcia, venalidade e ambições dos donos do poder.
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Os ventos da massa: Game of Thrones e House of Cards

Uma coisa que chamou a atenção ao assistir essas duas excelentes séries está no eixo elite-massa. Nas duas, temos apenas elites sociais como personagens principais: em GoT, são todos nobres de casas tradicionais, soberanos de terras e atores políticos de grande peso. Na sua pirâmide de poder, os protagonistas só perdem para o Rei de Westeros, que não é sujeito na história (isto é, não tem sua perspectiva como centro de narrativa). 

Em House of Cards (ainda não assisti tudo, estou na primeira temporada ainda), o foco está no jogo político do Congresso norte-americano, com personagens deputados, atores de alto escalão em Washington, de diversos lados distintos: defensores de interesses de grupos específicos (lobistas de sindicatos, de corporações, etc), fazendo valer o conflito de forças que movimenta a política. 

Mas direciono o olhar aqui pra outra parte das duas séries: a ausente. A massa. Nas duas, há obviamente uma multidão de pessoas que fazem parte das duas sociedades (a americana e a "westerosi"). Elas são bastante relevantes para o jogo político, sendo tratadas como algo com que a elite deve lidar. Às vezes ela está a favor, outras, contra. Mas em todas as ocasiões é uma peça de articulação, que deve ser lidada com estratégia, para orientar seus ventos. 

A elite é o vento da massa nessas duas séries de TV, as mãos que movem as peças de xadrez. E a massa são peões com pouca força individual, mas bastante coletiva. Individualmente, ela não existe, não é nada. Um indivíduo da massa não tem identidade alguma, e se tem já não é mais massa.

Duas cenas são ilustrativas. Em HC, Frank organiza um jantar de gala para uma massa de poderosos, todos ali convidados para juntar dinheiro para a ONG de sua esposa, Claire. São massa manipulada para os fins de Frank, não importando muito que sejam. Na sua maioria são figurantes. Na mesma cena, uma massa de protestantes está na porta do evento, articulada pelo inimigo de Frank em uma questão educacional, o sr. Spinella. Os poucos personagens relevantes na situação estão contornados por muitos à primeira vista irrelevantes, mas que em seu conjunto são bastante importantes.
Uma das massas, a de professores.




Em GoT, a família real desce ao cais da cidade para despedirem-se da princesa, que irá partir para terras vizinhas, como parte de um acordo político (ela vai na prática ser uma refém). Na volta, são atacados por uma massa de plebeus famintos, ensandecidos pela falta de comida na cidade. Os revoltosos estão malucos, e quase estupram Sansa Stark. Quem são eles? Uma massa de malucos, empecilho para a nobreza, que os vê como consequência da atual situação política. Afinal, naquele momento estão em guerra, e perdendo. A comida não entra na cidade, apenas a elite não passa fome. Mas para a massa, a consequência do jogo político é retratada no ataque aos poderosos.
A massa de famintos ao fundo. Tyrion, protagonista, entre dois guarda-costas. 
O único rosto visível é o de Tyrion.













Adendo: minha concepção de elite e massa vem de Nietzsche. Ele chama massa de rebanho, e suas ideias são bastante profundas sobre tais temas. Para ele, há um jogo contínuo entre as duas forças, entre a superioridade de poucos e a inferioridade de muitos. O objetivo do ser humano é a ascensão. Mas como ela é muito difícil, poucos conseguem. E ela só é boa por isso. Se fosse algo comum, não teria valor. Pra se ter valor, tem que ser especial, único. Elite. Polêmico, não?
Cuidado ao ler essas palavras. Elite e rebanho não são coisas estáticas. Mudam toda hora. É um conflito dialético, mais ou menos. Mas nesse grau de abstração, não há síntese, apenas duas forças contrastantes se movimentando pelo decorrer do tempo.

Governo critica imagem do Brasil dada por produto da Adidas

(Escrevi escutando isso.)
Site da empresa nos Estados Unidos oferece peças com mensagens de duplo sentido
Paulo Favero
SÃO PAULO - Uma linha de camisetas da Adidas sobre a Copa do Mundo está gerando polêmica por causa do duplo sentido que o material traz. Ao mesmo tempo que fala de Brasil e da paixão pelo futebol, também reforça o apelo sexual num momento que o governo do País luta para não passar essa imagem internacionalmente. O material causou revolta na Embratur, que promete formalizar nesta terça uma reclamação à empresa alemã de material esportivo.
"Vamos entrar em contato com a direção da Adidas, fazendo um apelo para que reveja essa atitude e tire os produtos do mercado. Essa campanha vai no sentido contrário ao que o Brasil defende", explica Flávio Dino, presidente da Embratur. "Nosso esforço é voltado para a promoção do Brasil pelos atributos naturais e culturais. Uma iniciativa dessas ignora e desrespeita a linha de comunicação que o governo adota."
Uma camiseta apresenta a frase "Lookin’ to score", que pode ser traduzida por "em busca dos gols". Mas também é uma expressão que significa "pegar garotas" de uma maneira mais sexual. A imagem de uma moça de biquíni não deixa dúvidas da dupla intenção. Ela está à venda no site da adidas nos Estados Unidos (www.adidas.com/us/) por US$ 25 (R$ 58,50) e parece fazer parte de uma nova linha.
A outra camiseta coloca um coração amarelo que também pode ser enxergado no formato de nádegas com um fio dental verde. Também passa uma mensagem de duplo sentido e fala "Eu amo o Brasil". No site, custa US$ 22 (R$ 51,50). O portal do jornal O Globo já havia mostrado a peça nesta segunda-feira.
"O governo brasileiro discorda dessa linha de produtos, não aceitamos o turismo sexual. Claro que as pessoas podem namorar durante a Copa, mas não queremos uma mercantilização disso. Acaba sendo inclusive um desserviço à própria marca, porque ela está se associando a um tema muito negativo", comenta Dino.
O presidente da Embratur disse que isso atrapalha a organização do Mundial. "A gente luta para afirmar uma imagem positiva do evento, e isso fortalece os discursos críticos à Copa. O problema é a apropriação disso e deturpação do que pode ser a Copa. Já comunicamos nossas agências espalhadas por 15 países para que façam a divulgação de que não aceitaremos isso."
A Adidas foi procurada pela reportagem do Estado, mas até o fechamento desta matéria ainda não tinha se pronunciado. O caso foi enviado para a matriz da empresa na Alemanha, porque o material é comercializado no exterior e por isso é a sede global que deve se posicionar. A Adidas é patrocinadora oficial da Copa do Mundo.
Sou brasileiro e penso: o povo aqui é muito sexualizado. Já frequentei muitos eventos de massa, tanto de classe alta como de classe baixa. Em ambos o sexo é fundamental. Os homens "caçam" mulheres, tentando dar beijo e possivelmente transar. Mas o normal é só dar beijo, o que implica em beijar várias pessoas diferentes em um mesmo dia. 

Não sei se o Brasil é mais sexualizado que outros países, mas com certas as massas aqui se divertem na sexualização. Dificilmente um jovem solteiro mainstream gosta de baladas em que não terá chances de "pegar garot@s". Os eventos de músicas mais populares exalam sexo: funk, forró, axé, house, samba.

O CARNAVAL. Quando era solteiro, aproveitava apenas a dimensão sexual do carnaval, já que detesto música mainstream brasileira (e nem acho ficar bêbado tão legal). Me envolvi na massa, porque o sexo me estimulava.

O sexo faz parte da cultura do país. Temos uma cultura sexualizada. Não é minha cultura, mas essa generalização faz sentido como figura de linguagem (sinédoque, ou a generalização para ilustrar uma ideia). Afinal, não sou um brasileiro médio. Mas posso reconhecer as características de um. Sexo está lá!

Agora, o governo quer esconder isso. Quer negar a cultura do brasileiro médio. Acha que isso causa uma impressão negativa do país. Isso sem dúvida causa impressões errôneas em turistas, que só recebem meia informação, que interpretam de forma distorcida - veem a cultura sexualizada como "sexo fácil". Mas o governo, representando uma ideologia de elite refinada, ao bater de frente com a Adidas está dizendo: "não gosto da cultura brasileira. Prefiro a europeia cristã, de onde importo meus valores".

Talvez esteja na hora da política brasileira ser mais brasileira, e menos europeia cristã, aceitando a nossa cultura sexualizada. Mas não defendo isso ao pé da letra, pois isso resultaria em ter que defender valores conservadores do brasileiro médio. Pois se de um lado há a cultura sexualizada, de outro há a cultura evangélica. Se formos atentar para esse último, prefiro ficar importando ideias europeias para configurar nossa ideologia.

Mas para não ficar expandindo em polêmicas, concluo: a reportagem acima mostra a distorção entre elite e massa, a primeira representando ideologia ausente na multidão, e a segunda tendo práticas vistas como negativas. E nesse caso, a elite não tem poder! Afinal, a cultura brasileira é "lamentável" há quanto tempo, sem que a elite refinada pudesse mudá-la?

Adendo: nessa outra reportagem há uma crítica a uma imagem europeia do Brasil, representada no uso das aspas, que indicam uma ideia com a qual o jornal não concorda (principalmente em "incivilidade"). Já é outra ideologia aqui, mais nacionalista, que tenta desmentir a visão do estrangeiro centrada nos problemas criminais existentes no país. Talvez não seja nacionalismo, mas provincianismo, já que está se tratando mais de Brasília. Há muito pano pra manga aqui, como sempre, mas concluo: ideologias diferentes convivem até na mesma classe social. O nacionalismo e a colonialidade ideológica estão em nossa elite, assim como mais elevada inconsciência crítica (na elite do interior, por exemplo).

Adendo²: os vídeos abaixo também dialoga com o assunto. Aqui, a elite não aparece como importadora de valores, mas como portadora de inteligência, oposta à massa burra que caracterizaria a cultura do brasileiro médio.




O conceito de neymarização é muito bom, PC Siqueira filosofa com grande habilidade nesse vídeo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Weber é niilista?

Quando nos deparamos com os textos sociológicos de Weber, nos damos conta de uma profunda distinção que se cristalizou nos estudos sociais posteriores, e não apenas em sociologia, mas também em economia e ciência política. Os seres humanos e suas ações podem estar em dois planos. De um lado, temos o plano da lógica, da formalidade e dos grilhões do mundo físico. Aí se inserem os fatos e a racionalidade. Dentro dessa dimensão, os debates seguem os ditames da lógica e ciência (quer queiramos ou não).

Mas as coisas não são apenas questão de arranjar as peças de acordo com as regras que as acompanham. Afinal, a pergunta "quais são as regras?" nunca é gratuita. Fazemos um esforço criativo e existencial para dar origem a tais regras. E a primeira dimensão, da lógica, é subordinada a esta, a seletiva. Ela seleciona aquilo que é o caso, um ato do livre arbítrio por assim dizer, e só depois aparece o quadro a ser arranjado com as diversas peças criadas pelo ato seletivo.

O ato de seleção não é gratuito. Isso quer dizer que: 1) ou ele é sociocultural, e as determinações contextuais dos indivíduo o constrangem a fazer certas seleções (e é por isso que podemos falar que "todo conhecimento é político", já que forças nos impelem a tomar certas seleções ao invés de outras), e nesse caso a abstração da parte do todo é menor; 2) ou ele é existencial, e o pensador enxerga que as seleções são um "salto de fé", em si totalmente não fundável, mas que é parte constitutiva da vida humana.

Provavelmente a maior parte da humanidade se encaixa em 1. Isso quer dizer, muitíssimo grosso modo, que "as sociedades pensam por elas". São indivíduos receptáculos da cultura, que vivem com ela em consonância, e que aparentam fomentar sua continuidade no longo prazo.

Em 2, vemos o que se pode chamar de "mente moderna". Muitos pensam que isso sugere que ela é a mentalidade que substituiu a 1, na passagem da "Antiguidade à Modernidade". Mas seu poder não é tão amplo assim (infelizmente, creio eu), e talvez sua presença seja mais forte que a 1 apenas nos Estados Unidos e Europa Ocidental. O que ela tem de especial é sua capacidade de distinção, entre fatos e valores, e entre as próprias mentalidades distintas que estou mostrando aqui. Esse texto é um retrato da modernidade de que ele está tratando haha!

O niilismo, em Nietzsche (do qual Weber era fã), é tratado na citação de Vontade de Potência: 
- O que significa niilismo? – que os valores mais altos se desvalorizam. Falta a finalidade; falta a resposta ao “por quê?”

Weber, entendendo o caso, utilizou "valores" como ferramenta de análise sociológica, e mostrou que o mundo está povoado por uma infinidade de valores em constante atrito, o que caracteriza o grande leque de diferenças individuais e sociais. Valores não têm justificativa. São o que são, e no mundo moderno, são indiscutíveis, uma vez que não há critério científico (nem moderno), para hierarquizá-los. Face a eles, podemos apenas constatar que há um politeísmo de valores no mundo, uma "luta de opiniões".

Esse é o grande Weber, querido dos cientistas sociais razoáveis. Tomo partido dele, apesar de achar que não há partido algum, apenas lógica nesse caso. E é niilista? Em todo esse sentido, é sim, assim como a ciência. Não há ato seletivo de valores científico, nem cálculo de "melhor valor" ou algo do gênero. É um salto de fé, ou uma imposição sociocultural. Reconhecer isto é sim, em certa medida, ser niilista. E então, nós, raça moderna de razoáveis, ao pararmos para "pensar bem", constatamos o vazio das possibilidades, o existencialismo que sugere que temos uma montanha de escolhas e que viver é um processo seletivo, que corta vidas possíveis que vão sendo deixadas para trás. Mas, ao lado desse vácuo do livre arbítrio, temos o tudo das culturas e sociedades do mundo, da imensidão do céu que nos sugere que há mais valores entre ele e a terra do que sonhamos em qualquer ocasião. É o que movimenta a ciência. Em sociologia, a névoa perene dos valores, e de como se age em torno deles, movimenta as engrenagens que tornam essa disciplina uma construção de conhecimento.

(e viva o niilismo, que permitiu tudo isso!)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O que significa racismo no Brasil?

Ultimamente andamos vendo muito a palavra racismo pela Internet brasileira. Talvez o maior incentivador do assunto foram as discussões de cotas, primeiro em universidades públicas e agora em concursos públicos. O debate se coloca entre um pólo que defende a "meritocracia", ou seleção dos mais aptos, e outro que visa promover a igualdade pela correção de desigualdades históricas, sendo para isso necessário ações afirmativas.
Err... queria explicar mais adiante, depois de um texto mais extenso, mas não deu, mil desculpas...
O racismo brasileiro é exatamente a percepção da cor associada a uma classe social mais pobre, e a pobreza majoritariamente vinculada à etnia negra. As pessoas de pele mais escura tendem a ser mais pobres no Brasil, uma vez que até 130 anos atrás quase todas elas eram escravas que não tinham nada a não ser o que era dado pelos senhores. Mas não é apenas a cor da pele que define essa etnia racialmente desfavorecida, mas também a feiura. Um negro rico médio é bem mais bonito que o pobre, que tem a pele mais castigada, os dentes mais tortos, fora aqueles traços de beleza orientados pela cultura europeia (o negro rico tem mais "sangue branco"), na qual o nariz e os lábios são o maior exemplo (mas o cabelo também).
Assim, vemos o racismo quando associamos esse negro pobre feio a um marginal, como no caso emblemático que ocorreu em Vitória no dia 30/11/2013. O vemos também em imagens como essas:








     




A da esquerda mostra o médico cubano negro sendo vaiado pelas médicas brasileiras, de cor "branca". Estão representadas aí as classes econômicas brasileiras, pelo cara que ganha pouco e não precisou ser rico pra se tornar médico, e as mocinhas de família endinheirada, o que possibilitou os estudos em escolas particulares, para depois ir para uma universidade federal concorrida, ou então pagar uma mensalidade cara em uma instituição privada (para depois ganhar muito bem).

A da direita mostra a mesma coisa em escala maior: a classe "branca" que tem dinheiro para pagar uma escola de qualidade (mensalidades altas, e que não concorrem em qualidade com as escolas públicas) pega quase todas as vagas para o curso de medicina na universidade federal. E a classe negra, maioria dos pobres, pega quase todas as vagas do concurso para gari no Rio de Janeiro, para ganhar na época menos de 1000 reais.

Pra finalizar: ao que me parece, o preconceito é só um sintoma do racismo brasileiro. Ele pode nortear o racismo em outros lugares (como nos EUA), mas aqui, é apenas um derivação lógica da associação da cor com uma classe econômica (o nosso racismo), uma vez que os bandidos tendem a vir da pobreza (se não é verdade, pelo menos o senso comum acha isso).

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A Roda de Usuários

No Plano Piloto, zona central de Brasília constituída pela Asa Norte e Asa Sul (a definição exata é controversa), é comum encontrarmos pelas quadras grupos de pessoas interagindo no formato "roda". Elas estão fumando maconha.

Ao contrário de muitas cidades, o Plano Piloto não tem ruas: temos o asfalto e carros passando por cima, mas elas não seguem o padrão rua-calçada-construção. Há muitas áreas verdes (espaços ermos ocupados pela "natureza") e poucos pedestres. Geralmente as pessoas andam de carro, então estacionam próximo a onde querem ir e mal caminham. Quem vai de ônibus pode tomar vários caminhos diferentes entre as diversas áreas verdes. Como resultado, quase não tem gente no meio das Superquadras - a área residencial típica do Plano Piloto - e pode-se fumar maconha sem o stress de ver gente olhando com maus olhos.

Assim há uma relação entre características estruturais do Plano Piloto (ausência da rua tradicional, muita área verde, distinção entre espaços residenciais e comerciais) e agenciais (pouca gente andando nas ruas) que confere pouca publicidade ao ato de estar fumando maconha - algo malvisto - fora da própria casa.

As classes médias do Plano Piloto se aproveitam da situação para se encontrar para fumar em diversas Superquadras. Algumas são evitadas, como a 402 Sul, por se tratar de "quadra de militar". Na Asa Sul, prefere-se as 400, por seus prédios não terem porteiro, e também o começo das 700, por haver uma área verde intermediária entre as casas (nessa linha há casas, e não prédio como no geral). Contudo não há imperativos, e no geral se fuma em qualquer quadra, principalmente se não se formar a roda em si, apenas sentar em um banco e ficar fumando como quem não quer nada.

Também há os "campões", grandes áreas verdes que separam quadras, que muitas vezes são utilizados como ponto de encontro. Muitas vezes desconhecidos intervêm para pedir um trago e fumar conjuntamente. O usuário de maconha classe média do Plano Piloto quase nunca se preocupa com polícia, que poucas vezes corre atrás de tais usuários. Mas para evitar possíveis inconveniências, costuma-se carregar apenas uma pequena parcela, e esconder nas áreas verdes os "flagrantes", durante o consumo do baseado da vez.

Essa Brasília é uma cidade convidativa para os maconheiros, que fumam com liberdade no espaço público, e aproveitam um contato com a natureza (as áreas verdes) que poucas grandes cidades têm. Não é como Belo Horizonte, onde muitas vezes é preciso "fumar andando".

A foto acima foi tirada de um bar. Como podemos ver, há uma área verde que separa o fotógrafo da roda, algo típico da cidade. Além disso, pouca calçada, o que reflete a baixa quantidade de transeuntes. O prédio residencial está ao fundo. Para essas pessoas, foi muito fácil sair do bar, fumar um baseado e voltar: precisaram andar 20 metros e já estavam em um lugar apropriado.





segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A erupção da comunidade na linguagem

Quanto mais forte uma comunidade, mais consensual ela é. Os indivíduos expressam diversas proposições que outros tomam e discordam, expondo um argumento divergente. No entanto, todas as proposições elaboradas são tomadas à luz do que a comunidade consideraria. Como disse Wittgenstein, não existe linguagem privada. As proposições existem para um indivíduo tomar como objeto e reagir a ela: e quanto mais forte a comunidade, mais convergente será essa reação com sua fonte. Em outras palavras, a linguagem expressada por um indivíduo é sempre elaborada à luz de uma futura audiência, seja ele mesmo, seja um “outro generalizado”, que é a abstração de todas as outras forças que emitem ações significativas. Assim, todas as crenças existem por sermos autoconscientes e empáticos (vemos que outros também têm consciência). Mesmo se acreditamos que ela é “somente uma opinião”, ela foi elaborada à luz de uma audiência (ao menos nós mesmos) que deve aceitá-la. Caso contrário estamos sendo irracionais.
Um bom exemplo de força comunitária que gera consensos é uma partida de futebol: todos os jogadores sabem como se devem portar, quais regras seguir e o como devem reagir em diversas eventualidades, desejáveis ou não. Aqui, há muito menos dissenso do que em uma arena política, ou em uma sala de aula de sociologia nos tempos atuais. Os gestos a serem feitos estão programados, assim como as reações a outros gestos dos demais participantes.
Entender como jogar um jogo, quais regras seguir e o que esperar dos outros, é uma etapa importante na socialização e na composição de um Eu (Mead).
Se a comunidade brasileira fosse uma entidade única, não haveria dissensos jamais. Sobre nada, porque todas nossas concepções são formuladas à luz de uma comunidade (o outro generalizado). É a audiência de nossas expressões.
E com tantos dissensos, nos debates políticos, nos valores culturais, nas visões sociológicas, pergunto: onde está nossa comunidade? Parece que andamos para uma fragmentação social que sabe-se lá no que vai dar. Não sei se era diferente antigamente, mas provavelmente estamos numa era mais plural quanto aos grupos que compõem uma sociedade. O pós-marxismo, por exemplo, abandonou o tradicional dualismo marxista em favor a uma multitude de grupos em conflito pelo poder.
Clamo pelo resgate do consenso e o fortalecimento de nossa comunidade, baseada em valores universais – tolerância, compromisso e diligência.

Autores inspiradores: George Herbert Mead, Erving Goffman, Ludwig Wittgenstein e Jurgen Habermas. E um pouco de Mussolini hehe.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Na aula de sociologia

Ontem, durante uma aula de teoria sociológica clássica, estávamos debatendo sobre o conceito de "atitude blasé" presente em "As grandes cidades e a vida do espírito" de Georg Simmel. Durante a conversa eu sugeri uma significação que extrapolava o uso do conceito por Simmel. O professor e os outros alunos não gostaram muito, e percebi que eles tinham necessidade de se imaginar no ideário histórico simmeliano.

Penso que seria legal fazer uma filosofia também, bastante produtivo para todos pela chance de chegar a novos territórios conceituais. A história da sociologia pode se mesclar com exercício de filosofia, e claro, também de sociologia - mas essa última estava presente em sala (ainda bem).

Saí da aula pensando a sociologia ser mais ortodoxa em sua relação com os conceitos. É comum nas aulas que quando alguém sugere alguma significação ousada para um conceito, respondam "Ah mas Weber não queria dizer isso." Se limitam ao escrito, quando o mais importante muitas vezes está nas entrelinhas...

Ontem pensei em um pequeno quadro epistemológico:

Conceito = conjunto de significados
Teoria = conjunto de conceitos articulados por certas regras
Doutrina = teoria dogmatizada

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ciências Sociais e Emancipação

O verdadeiro poder emancipatório das Ciências Sociais está no olhar clínico, e não na imaginação fértil!
(pelo menos ela entretém hehe).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A sociologia é inumana?

Talvez seja melhor chamá-la de "extracotidiana".


<< A ciência é o domínio do inumano, apesar de ser humana. O que não entendemos não é humano. É sobrenatural. Por enquanto >> 

Esses aforismas abrem o texto "Ciência" de Zé Will, página 188 de Self-Portraitor. Em um post anterior, escrevi que ações políticas não são sociológicas, mas humanas.

Tanto nos aforismas quanto no meu post, chama-se a atenção para o antagonismo entre ciência e humanidade. Nesse caso, humanidade significa "ser membro do mundo natural". Os humanos são animais oras bolas! Nos tomando como animais, o que passa no mundo psíquico se assujeita aos ditames do mundo físico.

Nos importamos com o que um boi pensa? Ou um cavalo? Esse tipo de consideração é tomado como piada pela maioria dos homens.

A ciência só existe na nossa cabeça, enquanto jogo de linguagem. Fora disso existem sequências de ações,  a que atribuímos sentido de novo em um jogo de linguagem.

Agora pode parecer que dentro desse jogo ciência x humano, qualquer pensamento seja inumano. Mas não é o caso pois a maior parte dos pensamentos tem algum propósito prático. Não fosse assim, a maioria das pessoas não acharia chato ou cansativo "fazer ciência" ou filosofar.

A sociologia é inumana porque ela joga um jogo incomum, com poucos jogadores. As regras básicas (pragmáticas) do "jogo humano" não estão tão presentes, e quando estão, é pra atrapalhar. Nessa diferença entre a sociologia e o mundo vivo, talvez o melhor seja perguntar: e daí?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O humor e o status

Obama contando uma piada idiota. O sujeito ao lado força a risada porque Obama é o  Presidente.


Agora há pouco Noemí, a estagiária que trabalha comigo, relatou um caso interessante:

Ela estava passando no corredor do Ministério, quando se deparou com um número expressivo de pessoas "de bobeira" no corredor. Nesse momento, o Conselheiro, chefe da Divisão na qual trabalhamos, também passava por ali e soltou uma "piada":

- É bloco de rua?

O pessoal riu.

Noemí, ao me contar essa história, comentou:

- Se fosse eu falando isso, todos ficariam assim: ¬ ¬ (cara séria) , mas como foi o Conselheiro, todos riram!


Fiquei a pensar no números de piadas imbecis que são contadas por pessoas com status, e são falsamente apreciadas!


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A sociologia é conservadora?


Zoe Crawford, ativista do PETA, se fingindo de churrasco.


Ao ler a chamada de uma notícia do G1[1], fiquei pensando no que motiva uma pessoa a participar de uma organização como o PETA. Na minha cabeça, é simplesmente ridículo tentar convencer o mundo a não comer carne e a tratar animais como a ONU quer que tratemos seres humanos.

Mais ridículo ainda é se fantasiar de “churrasco” no meio da rua em Sydney achando que vai chegar alguém e se converter, ao olhar a cena e pensar: “É mesmo, carne humana é igual a carne de boi. Melhor parar de comer”.

No entanto, cabe olhar para o sentido da palavra “ridículo” aí. Significa, em última instância, incompreensível. Não entra em nossa cabeça o porquê da atitude. “Falta do que fazer”, “perda de tempo”, são um dos clichês usados para criticar.

Mas, claro, todas nossas tramas políticas podem ser elevadas à ridicularidade! É muito fácil classificá-las como fúteis. Mas achar que temos que justificar o que fazemos é um dos grandes sintomas da doença moderna.

Olhando para o movimento Marcha da Maconha, logo falamos que há tantas coisas mais importantes, e as pessoas gastando seu tempo com isso! Também se critica o governo assim: perseguem maconheiros enquanto há estupradores e homicidas soltos por aí. Mas o mundo humano é mais complexo, muito do que acontece é mal pensado e não conseguimos justificar. O mundo moderno passou a encontrar mais idiotices correndo soltas!


É difícil entender as motivações políticas das pessoas em muitos casos[2]. Weber, ao pensar nas ações humanas, cunhou o termo wertrationalität, ou razão voltada ao fim em si, e não na relação com o meio. No caso da ativista do PETA, ela agiu pensando no seu ideal de mundo (animais e humanos amiguinhos), sem considerar a melhor forma de atingi-lo (ou considerando menos a zweckrationalität, que é razão voltada à relação meio-fim).

E realmente, pensando em nossas ações políticas (se é que temos), elas não poderiam ser consideradas ridículas? Talvez o papel da sociologia seja mostrar o quão ridículo a ação política é. Porque, se ela deu certo, a conjuntura histórica a justifica, e se deu errado, também! Poderíamos deixar a onda da história nos levar, sem precisar do esforço do nado!

Mas minha conclusão é mais clínica: não faz sentido chamar a sociologia de conservadora ou progressista. Olhando para minhas ações políticas, fica claro que elas não têm nada de sociológico. Elas têm muito é de humano! O campo sociológico é totalmente distinto do campo político, ao vermos política na sociologia, matamos ela.[3]



PS: ao terminar o texto, me surgiu uma das conseqüências de se estudar Ciências Humanas por tanto tempo (no meu caso, 8 anos seguidos até agora). As palavras vão ficando insuficientes para o que se deseja expressar! Talvez por isso que certos autores sejam tão prolixos.


[2] No auge da razão, é difícil entender QUALQUER motivação política! O budismo e o liberalismo, ambos articulam nessa direção. Mas isso fica pra outro texto...
[3] Mas claro que a frase “Toda a sociologia é política” está correta! Mas ao conseguirmos identificar as partes políticas, devemos remediar o dano ou então ignorá-lo, danificando o material sociológico.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Retrato de um assassino - Adam Lanza parte 2


Freud utilizou a ideia de ambivalência em sua teoria.


Para Freud, muitas neuras psicológicas que parecem opostas possuem a mesma raiz. Por exemplo, aqueles muito bagunceiros e os obsessivos com organização podem ter tido experiências semelhantes que precederam seus comportamentos. A isso chamamos na psicanálise de ambivalência, que “designa a coexistência de atitudes afetivas opostas frente a um objeto, e particularmente a coexistência do amor e ódio em uma mesma pessoa”.[1]
Ou seja, certa experiência pode levar a opiniões e atitudes opostas: ame ou odeie, suje ou limpe, organize ou bagunce, etc.
O caso de Adam Lanza
Adam foi criado nos Estados Unidos em uma pequena cidade. Foi um garoto tímido e introspectivo, que falava pouco e possuía fobia social. Ele era muito diferente de seus conterrâneos! O adolescente médio de sua cidade não era tão calado, possuía alguns amigos e seguia a vida social no eixo família-escola. Adam era diferente, ou acreditava ser. Não tinha o número de amigos que os outros tinham, e nem a facilidade para o diálogo. Em casa, não havia o reconhecimento dos outros (mãe, irmão, pai) como uma pessoa de igual nível, mas como seres diferentes (inferiores ou superiores, dá no mesmo!) com os quais a amizade não surgia. Somente a necessidade de convívio.
Adam conviveu com a liberdade desde sempre, pois nunca foi constrangido a mudar! Sua sociedade tolerava sua conduta diferente, como muitas vezes acontece no Ocidente (permitir a existência dos esquisitos). Sequer bullying ele sofria! Era somente deixado a ser o que era.
A liberdade extrema que Adam vivenciou levou-o a uma conclusão fatal: a morte é a maior forma de liberdade a ser atingida. A morte liberta. Ao matar vários, Lanza acreditou estar liberando eles de uma vida vazia. Afinal, pra que serve a liberdade se não há escolhas melhores, se podemos ser esquisitos e os outros não lidarem com isso?
Dessa forma, a experiência de liberdade de Lanza (sua aceitação no meio, mesmo sendo diferente) o levou à possibilidade de atingir o ápice do conceito: o poder de morte em mãos e a escolha de usá-lo (sentindo assim a liberdade), libertando os corpos terrenos desse mundo. Mas não consideramos privar alguém de sua vida a maior ofensa à sua liberdade? Ou será que Lanza está certo? – Melhor ser um morto livre, do que um escravo vivo.


[1] Fonte: http://www.universalis.fr/encyclopedie/ambivalence-psychanalyse/